terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Soberania Divina - C. H. Spurgeon


(Divine Sovereignty)



  Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?” – Mateus 20:15

O chefe de família diz: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?” e o Deus dos céus e da terra te faz esta mesma pergunta nesta manhã. “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?” Não existe atributo de Deus que ofereça mais conforto aos seus filhos do que a doutrina da Soberania Divina. Nas circunstâncias mais adversas, nas mais severas inquietações, eles crêem que a Soberania ordenou as suas aflições, acreditam que ela as governa e os santificará completamente. Não existe outra coisa pela qual os filhos de Deus devam mais ardentemente contender do pelo assunto referente ao domínio de seu Mestre sobre toda a criação – a majestade de Deus sobre todas as obras de suas próprias mãos – e pelo assunto referente ao trono de Deus, e ao Seu direito de assentar-se sobre esse trono. Por outro lado, não há doutrina mais odiada pelos mundanos, nem uma verdade com a qual eles mais brincam do que a grande e estupenda, mas todavia mui certa, doutrina da Soberania do infinito Jeová. Os homens permitem que Deus esteja em qualquer lugar, exceto em Seu trono. Permitem que Ele esteja em Sua oficina, moldando os mundos e criando as estrelas. Permitem que Ele esteja em Sua entidade filantrópica para dispensar Suas esmolas e conceder Suas generosidades. Permitem que Ele mantenha firme a terra e sustenha os pilares dela, ou que ilumine as lâmpadas do céu, ou governo as ondas do oceano inquieto; porém, quando Deus ascende ao Seu trono, Suas criaturas então rangem os dentes; e, quando proclamamos um Deus entronizado , e Seus direitos de fazer o que quiser com o que é Seu, de dispor de Suas criaturas como considerar melhor, sem consultá-las a respeito do assunto, então, nesse momento somos vaiados e execrados, e os homens tapam os ouvidos para nós, porque o Deus que está em Seu trono não é o Deus que eles amam. Eles O amam em qualquer lugar, exceto quando Ele se assenta no trono, com Seu cetro em Suas mãos e Sua coroa sobre a cabeça. Mas é um Deus entronizado que amamos pregar. É Deus sobre o Seu trono em quem confiamos. É Deus sobre o Seu trono de quem temos cantado esta manhã; e é Deus sobre o Seu trono de quem falaremos neste discurso. Tratarei somente, contudo, sobre a parte da Soberania de Deus, isto é, a Soberania de Deus na distribuição de Seus dons. Neste respeito creio que, Ele não somente tem o direito de fazer o que Ele quiser com o que é Seu, mas que, na realidade, exerce esse direito.
Devemos assumir, antes de começar o nosso discurso uma coisa certa, a saber, que todas as bênçãos são dons e que não temos nenhuma reivindicação delas por nossos próprios méritos. Penso que toda pessoa que considera os fatos concordará. E sendo isto admitido, nos esforçaremos para mostrar que Ele tem um direito, vendo que eles são Seus para fazer o que Ele quiser com eles – reter deles totalmente como Lhe agradar – distribuir para com todos eles se Ele escolher – dar a alguns e a outros não – dar a ninguém ou a todos, segundo pareça bom a Sua vista. “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?
  Dividiremos os dons de Deus em cinco classes. Primeiro, temos dos dons temporais ; em segundo lugar, os dons salvíficos ; terceiro, os dons honoríficos ; quarto, os dons úteis ; e em quinto lugar, os dons consoladores . De todos eles diremos: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?

I. 
Em primeiro lugar, então, observemos os DONS TEMPORAIS. É um fato indisputável que Deus não tem, nas questões temporais, dado a todos os homens da mesma forma; que Ele não tem distribuído a todas as Suas criaturas a mesma quantidade de felicidade ou a mesma posição na criação. Há uma diferença. Observe que diferença há nos homenspessoalmente (porque consideraremos os homens principalmente); um é nascido como Saul, que era mais alto do que todo o povo desde o ombro para cima – outro vive toda a sua vida como um Zaqueu – um homem de baixa estatura. Uns tem uma estrutura musculosa e uma porção da beleza – outros são fracos, e estão longes de ter qualquer estilo, formosura. Quantos encontramos cujos olhos nunca se regozijaram na luz do sol, cujos ouvidos nunca ouviram os encantos da música, e cujos lábios nunca proporcionaram sons inteligíveis ou harmoniosos. Andai por toda a terra e achareis homens superiores a vocês em vigor, saúde e estilo, e outros inferiores nestas mesmas coisas. Alguns dos que estão aqui são preferidos muito acima dos seus semelhantes em sua aparência exterior, e alguns são deixados de lado e não têm nada do que possam se gloriar na carne. Por que Deus tem dado beleza a um homem, e a outro não? A um todos os seus sentidos, e a outro só uma parte deles? Porque, em alguns, tem despertado o senso de apreensão, enquanto que outros são obrigados a ter uma mente entorpecida e teimosa? Respondemos: que os homens digam o que quiser, mas nenhuma resposta pode ser dada, exceto esta: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. Os antigos fariseus perguntaram: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” Sabemos que não foi por causa dos pecados dos pais nem do filho, que ele nasceu cego, ou que outros têm sofrido aflições similares, mas que Deus está agindo segundo Lhe agrada na distribuição dos benefícios terrenos e, dessa forma, diz ao mundo: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?”.
Observe também, na distribuição dos dons intelectuais , que diferença existe. Nem todos os homens são como Sócrates; há poucos como Platão; podemos descobrir apenas aqui e ali um Bacon; apenas de vez em quando conversamos com um Sir Isaac Newton. Alguns têm um intelecto estupendo com o qual podem desatar grandes enigmas – sondar as profundezas do oceano – medir a altura das montanhas – dissecar os raios solares e pesar as estrelas. Outros têm apenas mentes superficiais. Podeis educá-los e educá-los, mas nunca farão deles grandes homens. Vocês não podem melhorar o que não existe. Eles carecem de gênio, e vocês não podem concedê-lo. Qualquer um pode ver que há uma diferença inerente nos homens desde o próprio nascimento. Alguns, com uma pequena educação, sobrepujam aqueles que têm sido treinados de forma elaborada. Tomai dois garotos, educados na mesma escola, pelo mesmo mestre, e que se aplicam aos seus estudos com a mesma diligência mas, todavia, um deles superará o seu companheiro. Por que isto? Porque Deus tem declarado Sua soberania tanto sobre o intelecto como sobre o corpo. Deus não nos tem feito a todos da mesma forma, mas tem diversificado os Seus dons. Um homem é eloqüente como Whitefield; outro gagueja ainda que tenha que falar apenas três palavras de sua língua materna. O que faz estas variadas diferenças entre homem e homem? Respondemos: devemos atribuir tudo isto à Soberania de Deus, que faz o que quer com o que é Seu.
Notai, novamente, que diferenças há nas condições dos homens neste mundo . Mentes poderosas são de vez em quando descobertas em homens cujos membros estão vestindo as correntes da escravidão, e cujas costas são oferecidas ao chicote – eles têm pele negra, mas são no intelecto vastamente superiores aos seus brutais senhores. Assim, também, na Inglaterra; encontramos homens sábios freqüentemente pobres, e homens ricos raramente não são ignorantes e vãos. Um vem a este mundo para ser ataviado com a púrpura imperial – outro nunca vestirá senão a humilde vestimenta de um camponês. Um tem um palácio para morar e colchão de penugem para o seu repouso, enquanto outros encontram senão um lugar duro de descanso, e nunca terá um cobertor mais suntuoso do que as palhas de sua cabana. Se perguntarmos a razão disto, a resposta ainda é: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. Assim, de outras maneiras você poderá observar na passagem pela vida como a soberania se manifesta. A um homem Deus dá uma vida longa e uma saúde uniforme, para que ele dificilmente conheça o que é ter dias de enfermidade, enquanto outros cambaleiam através do mundo e encontram um túmulo a quase todo passo, sentindo milhares de mortes ao temer uma. Um homem, mesmo na extrema idade avançada, como Moisés, tem os seus olhos não turvados; e embora seu cabelo seja grisalho, ele permanece tão firmemente sobre os seus pés como quando era um jovem na casa de seu pai. Onde, novamente perguntamos, está a diferença? E a única resposta adequada é: é o efeito da Soberania de Jeová. Encontrareis, também, que alguns homens são tirados na aurora de sua vida – na flor da juventude – enquanto outros vivem além dos setenta anos. Uma parte antes de alcançar o primeiro estágio de existência, e outro tem sua vida prolongada até que se torne totalmente um fardo; devemos, eu compreendo, necessariamente traçar a causa de todas estas diferenças na vida ao fato da Soberania de Deus. Ele é o Governador e Rei, e não fará o que quer com o que é Seu?
Passemos deste ponto – mas antes devemos parar só um momento para aperfeiçoá-lo. Oh tu que tens sido dotado com uma nobre estrutura, um corpo formoso, não te glories nisto, porque teus dons vêm de Deus. Não te glories, porque se o fazes, tua formosura desaparecerá num momento. As flores não se gloriam de sua beleza; não exultai, vós, filhos da formosura; e oh!, vós, filhos da força e do intelecto, lembrem-se, que o que vocês têm foi concedido por um Senhor Soberano; Ele criou; Ele pode destruir. Não há muitos passos entre a poderosa inteligência e o idiota mais desvalido – os pensamentos profundos beiram a insanidade. Seus cérebros podem num momento ser golpeados, e daqui em diante serem destinados a viver como loucos. Não te glories de tudo o que conheceis, porque até mesmo o menor conhecimento que tem, te foi dado. Portanto, digo, não te enalteça sobremaneira, mas use para Deus o que Deus te deu, porque é um dom real, e tu não deves o colocar de lado. Mas se o Soberano Senhor tem te dado um talento, e não mais, não o enterre num lençol, mas use-o bem, e então, pode ser que Ele te dê mais. Bendiga a Deus, tu que tens mais do que os outros, e Lhe agradeça também que tenha lhe dado menos do que os outros, porque tu tens menos o que carregar sobre os teus ombros; e como o teu fardo é mais leve, menos gemereis em vosso caminho para a terra melhor. Bendiga a Deus, então, se possui menos do que teus companheiros, e veja Sua bondade tanto no reter como no conceder.

II.
 Em tudo quanto temos dito aqui, provavelmente a maioria está de acordo conosco; mas, quando chegamos ao segundo ponto, OS DONS SALVÍFICOS, um grande número de pessoas ficará contra nós, porque não podem receber nossa doutrina. Quando aplicamos esta verdade com respeito à Soberania Divina na salvação dos homens, então, encontramos os homens se levantando para defender os seus semelhantes, a quem eles consideram prejudicados pela predestinação de Deus. Porém, nunca ouvi de homens se levantando pelo diabo; e, todavia, creio que se algumas das criaturas de Deus tivessem direito de queixar-se de Seus tratamentos, estas seriam os anjos caídos . Pelo seu pecado, eles foram arremessados do céu imediatamente, e não lemos de qualquer mensagem de misericórdia que tenha sido enviada a eles. Uma vez lançados fora, sua condenação foi selada; enquanto que aos homens Deus deu uma trégua, foi enviada redenção a seu mundo, e um grande número deles foram escolhidos para vida eterna. Por que não contender com a Soberania tanto num caso como no outro? Afirmamos que Deus escolheu um povo dentre a raça humana, e Seu direito de assim fazer é negado. Mas eu pergunto: porque não se discute igualmente o fato de Deus ter escolhido homens e não anjos caídos, ou Sua justiça em fazer tal escolha? Se a salvação fosse uma questão de direito, certamente os anjos teriam direito de reivindicar misericórdia tanto como os homens. Não estavam assentados numa dignidade mais do que igual? Pecaram mais? Cremos que não. O pecado de Adão foi tão deliberado e completo, que não podemos supor um pecado maior do que o que ele cometeu. Se os anjos que foram expulsos do céu tivessem sido restaurados, não haveriam prestado maior serviço a Seu Criador, do que o que nós jamais poderemos prestar? Se fôssemos os juízes nesta questão, poderíamos dar liberdade aos anjos, mas não aos homens. Admirai, então, a Soberania e o amor Divino que, apesar dos anjos terem sido quebrados em pedaços, Deus levantou um número de eleitos dentre a raça humana para colocá-los entre os príncipes, através dos méritos de Jesus Cristo nosso Senhor.
Notai novamente a Soberania Divina, na qual Deus escolheu o povo israelita e deixou os gentios por anos na escuridão . Por que Israel foi instruído e salvo, enquanto a Síria foi deixada a perecer na idolatria? Era uma raça mais pura em sua origem e melhor em seu caráter do que a outra? Não tomaram os israelitas deuses falsos para si milhares de vezes, e provocaram à ira e ao aborrecimento o Deus verdadeiro? Por que, então, eles foram favorecidos acima dos seus semelhantes? Por que o sol do céu brilhou sobre eles, enquanto todas as nações ao redor deles foram deixadas na escuridão, e desciam ao inferno às miríades? Por que? A única resposta que pode ser dada é esta: que Deus é Soberano, e “compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer ”.
Assim também agora, por que Deus tem enviado Sua palavra a nós, enquanto uma multidão de pessoas ainda está sem ela? Por que cada um de nós aproxima-se do tabernáculo de Deus, Domingo após Domingo, tendo o privilégio de ouvir a voz de um ministro de Jesus, enquanto outras nações não têm sido visitadas do mesmo modo? Não poderia Deus fazer com que a luz brilhasse nas trevas ali bem como fez aqui? Não poderia Ele, se tivesse Lhe agradado, ter enviado mensageiros ligeiros como a luz para proclamar o evangelho por toda a terra? Poderia ter feito se quisesse. Visto que sabemos que Ele não o fez, nos inclinamos com humildade, confessando Seus direitos de fazer o que quiser com o que é Seu.
Mas, permita-me trazer a doutrina uma vez mais para os nossos âmbitos. Contemplai como Deus mostra Sua Soberania neste fato, que dentro da mesma congregação, aqueles que ouvem o mesmo ministro, e ouvem a mesma verdade, um é tomado e outro é deixado . Por que será que numa de minhas ouvintes, sentada nos últimos bancos da capela, e tendo sua irmã ao seu lado, o efeito da pregação será diferente do que na outra? Elas têm sido criadas sobre os mesmos joelhos, balançadas no mesmo berço, educadas sob os mesmos auspícios, ouvem o mesmo ministro, com a mesma atenção – por que uma será salva e a outra deixada? Longe de nós criar qualquer escusa para o homem que é condenado; não conhecemos nenhuma; mas também, longe esteja de nós o tomar a glória de Deus. Afirmamos que é Deus que faz a diferença – que a irmã salva não terá que agradecer a si mesma, mas a Deus. Haverá também dois homens dados a bebedice. Algumas palavras faladas transpassarão um deles fora a fora, mas o outro permanecerá imóvel, embora eles sejam, em todos aspectos iguais, tanto na constituição como na educação. Qual é a razão? Talvez você diga: porque um aceitou e o outro rejeitou a mensagem do evangelho. Porém, você voltou à mesma questão: quem fez com que um aceite-a e o outro a rejeite? Não se atreva a dizer que o homem fez a diferença por si próprio. Você deve admitir em sua consciência que é somente a Deus que pertence este poder. Mas aqueles que não gostam desta doutrina estão, todavia, armados contra nós; e dizem: como Deus pode justamente fazer tal diferença entre os membros de Sua família? Suponha um pai que tivesse um certo número de filhos, e que a um desse todos os seus favores, e consignasse os outros à miséria – não deveríamos dizer que o mesmo era um pai mau e cruel? Respondo: sim. Mas não é o mesmo caso. Você não tem um pai com quem tratar, mas um juiz . Você diz: todos os homens são filhos de Deus; eu exijo que você prove isto. Nunca li isto na minha Bíblia. Jamais me atreveria a dizer, ‘Pai nosso que estás no céu', até que fosse regenerado. Não posso me regozijar na paternidade de Deus para comigo até que seja um com Ele, e co-herdeiro com Cristo. Não ousaria reivindicar a paternidade de Deus como um homem não regenerado. Não é um pai e um filho – porque o filho tem o que reivindicar de seu pai – mas é um Rei e um súdito; e não é nem mesmo uma relação como esta, porque há uma reivindicação entre súdito e Rei. Uma criatura – uma criatura pecaminosa, não pode ter nenhuma reivindicação sobre Deus; porque isto faria a salvação ser pelas obras e não pela graça. Se os homens podem merecer salvação, então, o lhes salvar é somente o pagamento de um débito, e não seria dado a eles mais do que deveria ser dado. Mas afirmamos que a graça deve ser diferenciada, se é para ser graça de alguma forma. Oh, mas alguns dirão: não está escrito que “ Ele dá a cada um a medida de graça, para o que for útil? ” Bem, se você gosta de repetir esta maravilhosa citação tão freqüentemente atirada sobre minha cabeça, você é bem vindo; porque está não é uma citação da Escritura, a menos que seja duma edição Arminiana. A única passagem parecida com esta se refere aos dons espirituais dos santos, e dos santos somente. Mas digo, admitindo a vossa suposição, que uma medida de graça é dada a cada um para o que foi útil, todavia, Ele dá alguma medida de graça particular para que faça aquela proveitosa. Por que o que entendeis por graça, que possa ser usada para o que for útil? Eu posso entender que seja um aperfeiçoamento do homem no uso da graça, mas não posso compreender que seja uma graça que é aperfeiçoada para ser usada pelos homens. Graça não é uma coisa que eu uso; graça é algo que me usa. Mas as pessoas falam da graça às vezes como se fosse algo que elas pudessem usar, e não como uma influência que tem poder sobre eles. Graça não é algo que eu posso aperfeiçoar, mas que me aperfeiçoa, me usa e opera em mim; e que as pessoas falem sobre a graça universal, ela é totalmente sem sentido, não existe tal coisa, nem pode existir. Eles podem falar corretamente das bênçãos universais, porque vemos que os dons naturais de Deus são espalhados por todo lugar, num maior ou menor grau, e os homens podem recebê-los ou rejeitá-los. Não é assim, contudo, com a graça. Os homens não podem tomar a graça de Deus e usá-la para voltar, por si mesmos, das trevas para luz. A luz não vem para as trevas e diz: me use; mas a luz vem e dissipa as trevas. A vida não chega ao morto e diz: me use, e seja restaurado à vida; mas ela vem com um poder de si própria e restaura o morto à vida. A influência espiritual não chega aos ossos secos e diz: use este poder e se revistam de carne; mas ela vem e os reveste com carne, e a obra é feita. A graça é pois uma coisa que vem e exerce uma influência sobre nós.  
“A vontade soberana de Deus somente
Nos faz herdeiros da graça;
Nascidos à imagem de Seu Filho,
Uma novamente criada raça”.

E dizemos a todos aqueles que rangem os seus dentes contra esta doutrina, quer saibam quer não, que seus corações estão cheios de inimizade contra Deus; porque até que você possa ser trazido ao conhecimento desta doutrina, há algo que você ainda não descobriu, que te faz se opor à idéia de um Deus absoluto, um Deus livre, um Deus que não está algemado, um Deus imutável, e um Deus que tem um livre-arbítrio, o qual você tão profundamente gosta de provar que as criaturas possuem. Estou persuadido que a Soberania de Deus deve ser sustentada por nós, se estivermos num estado de mente saudável. “A salvação é do Senhor somente”. Então, dêem toda a glória ao Seu santo nome, a quem toda glória pertence.

III. Vamos agora, em terceiro lugar, observar as diferenças que Deus freqüentemente faz em Sua igreja nos DONS HONIRÍFICOS. Há uma diferença entre os próprios filhos de Deus – quando eles na verdade são Seus filhos. Observai o que quero dizer: Um tem o dom honorífico do conhecimento , outro conhece quase nada. Encontro-me, de vez em quando, com um querido irmão Cristão com quem eu posso falar por um mês, e aprender algo dele todos os dias. Ele tem tido experiências profundas – tem visto as coisas profundas de Deus – toda a sua vida tem sido um perpétuo estudo, onde quer que esteja. Ele parece ter colhido pensamentos, não de livros meramente, mas dos homens, de Deus e de seu próprio coração. Ele conhece todas as idas e voltas da experiência Cristã: ele entende a altura, a profundidade, a comprimento e a largura do amor de Cristo, que excede todo o entendimento. Ele adquiriu uma grande idéia, um conhecimento íntimo do sistema da graça, e pode vindicar os tratamentos do Senhor com o Seu povo.
Então, você deve encontrar outro que tem passado por muitas tribulações, mas que não tem um conhecimento profundo da experiência Cristã. Ele nunca aprendeu um só segredo em todas as suas tribulações. Ele simplesmente saía de um problema para outro, mas nunca parou para apanhar algumas das jóias que estavam enterradas na lama – nunca tentou descobrir as preciosas jóias que residiam em suas aflições. Ele conhece mui pouco a mais das alturas e profundezas do amor do Salvador, do que quando veio ao mundo. Você pode conversar com tal homem tanto quanto desejar, mas você não receberá nada dele. Se me perguntar o porque disto, responderei: há uma Soberania de Deus em dar conhecimento a alguns, e a outros não. Estive andando outro dia com um Cristão idoso, que me disse como ele tinha se beneficiado por meu ministério. Não há nada que me faça humilhar mais do que o pensamento que um crente ancião derivando experiências nas coisas de Deus e recebendo instrução nos caminhos do Senhor de um mero bebê na graça. Porém espero, quando chegar a ser um velho homem, se viver o suficiente para ser um, que alguns bebês na graça me instruirão. Deus algumas vezes fecha a boca dos velhos e abre a boca das crianças. Por que somos mestres de centenas que são, em alguns aspectos, muito mais capazes de nos ensinar? A única resposta que podemos encontrar é na Soberania Divina, e devemos nos curvar diante dela, porque não é lícito que Ele faça o que quer com o que é Seu? Em vez de ter inveja daqueles que tem o dom de conhecimento, deveríamos buscar ganhar o mesmo, se possível. No lugar de se sentar e murmurar por não termos mais conhecimento, deveríamos nos lembrar que o pé não pode dizer a cabeça, nem a cabeça ao pé: eu não tenho necessidade de ti; porque Deus nos deu talentos como Lhe agradou.
Observe, novamente, quando falamos dos dons honoríficos. Não somente o conhecimento, mas o ofício é um dom honorífico. Não há nada mais honroso para um homem do que o ofício de um diácono ou ministro. Magnificamos os nossos ofícios, embora não magnifiquemos a nós mesmos. Estamos seguros de que nada pode dignificar um homem mais do que ser apontado para ser um oficial numa igreja Cristã. Preferiria ser um diácono de uma igreja a ser um Prefeito de Londres. Ser um ministro de Cristo é, em minha estimação, uma honra infinitamente maior do que qualquer coisa que o mundo possa conceder. Meu púlpito é para mim mais desejável do que um trono, e minha congregação é um império maior do que o suficiente; um império ante o qual os impérios da terra se definham em nada, sem importância eterna. Por que Deus, por meio do Espírito Santo, chama com vocação especial alguém para ser um ministro, e ignora outros? Há outros homens mais dotados, talvez, mas não devemos nos atrever a colocá-los num púlpito, porque não possuem um chamado especial. Assim também com o diaconato; o homem a quem alguns talvez pensem ser o mais adequado para o ofício é deixado de lado, e outro é escolhido. Há uma manifestação da Soberania de Deus no apontamento para o ofício – em colocar Davi sobre o trono, em fazer de Moisés o líder dos filhos de Israel através do deserto, em escolher Daniel para permanecer entre os príncipes, em eleger a Paulo para ser o ministro dos Gentios e Pedro para ser o Apóstolo da Circuncisão. E você que não tem o dom honrado de ofício, deve aprender a grande verdade contida na questão do Mestre: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?
Há outro dom honorífico, o dom da expressão . A eloqüência tem mais poder sobre os homens do que todos os demais dons juntos. Se um homem deve ter poder sobre a multidão, ele deve buscar tocar os seus corações e prender seus ouvidos. Há alguns homens que são como vasos cheios de conhecimento até as bordas, mas não tendo nenhum meio de despejá-lo ao mundo. Eles são ricos em todas as pérolas do saber, mas não sabem como colocá-las no anel dourado da eloqüência. Eles podem colher as mais seletas flores, mas não sabem como dispô-las num doce buquê para oferecer-lhe a sua amada. Como é isto? Novamente respondemos: a Soberania de Deus é aqui demonstrada na distribuição dos dons honoríficos. Aprenda aqui, oh Cristão, se você possui dons, lance a honra deles aos pés do Salvador, e se você não os possui, aprenda a não murmurar; lembre-se que Deus é igualmente bondoso tanto quando retém como quando distribui os Seus favores. Se alguém dentre vós foi exaltado, que não se inche; se alguém foi humilhado, que não se despreze; porque Deus dá a cada vaso Sua medida de graça. Sirva-O segundo a sua medida, e adore o Rei do Céu que faz tudo segundo Lhe apraz.

IV. Observemos em quarto lugar, o dom de UTILIDADE. Freqüentemente tenho errado em censurar alguns irmãos ministros por não serem mais úteis, e tenho dito que poderiam ser tão úteis como eu se tivessem sido mais diligentes. Mas certamente há outros mais diligentes, e mais eficientes: outros que labutam constantemente, mas com muito menos resultados. E, portanto, me permitam retratar minha acusação, e em lugar disso asseverar que o dom de utilidade é o resultado da Soberania de Deus. Nós podemos labutar com todas as nossas forças, mas somente Deus pode nos fazer úteis. Podemos içar nossas velas quando o vento sopra, mas não podemos fazer com que o vento sopre.

A Soberania de Deus é vista também na diversidade dos dons ministeriais. Vocês vão a um ministro e são alimentados com abundância de boa comida; outros não têm o suficiente para alimentar um rato; ele tem abundância de censuras, mas nenhuma comida para o filho de Deus. Outro pode confortar o filho de Deus, mas não pode reprovar um apóstata. Ele não tem força de espírito suficiente para dar aquelas sérias e amorosas chicotadas que tantas vezes são necessárias. E, qual é a razão? A Soberania de Deus. Outros podem utilizar com destreza o martelo de forja, mas não podem curar um coração quebrantado. Se ele tentasse fazer isso, te faria lembrar de um elefante tentando passar um fio no fundo de uma agulha. Tal homem pode repreender, mas não pode aplicar azeite e vinho numa consciência esmagada. Por que? Porque Deus não lhe deu o dom. Há outro que sempre prega teologia experimental; e mui raramente toca em doutrina. Outro é todo doutrina, e não pode pregar sobre Jesus Cristo e Ele crucificado. Por que? Deus não lhe deu o dom de doutrina. Outros pregam sempre Jesus – bendito Jesus; homens da escola Hawker – e muitos dizem: oh! eles não nos dão experiência suficiente; eles não entram nas experiências profundas da corrupção que atormenta os filhos de Deus. Mas, não devemos censurá-los por isto. Vocês notarão que de um mesmo homem brotam às vezes fontes de água viva, enquanto noutros tempos eles serão tão secos quanto possível. Num Domingo você vai embora refrescado pela pregação, e no próximo não recebe nenhum bem. Há Soberania Divina em tudo isto, e devemos aprender a reconhecer e admirá-la. Estive pregando numa ocasião semana passada a uma grande multidão de pessoas, e numa parte do sermão as pessoas foram muito afetadas; senti que o poder de Deus estava ali; uma pobre criatura gritava absolutamente em voz alta por causa da ira de Deus contra o pecado; mas numa outra ocasião aquelas mesmas palavras poderiam ser pronunciadas e poderia haver o mesmo desejo no coração do ministro e, todavia, não produzir nenhum efeito. Devemos atribuir, digo, à Soberania Divina tais casos. Devemos reconhecer a mão de Deus em todas as coisas. Mas a presente geração é a mais ímpia que já pisou esta terra; eu verdadeiramente creio. Nos dias de nossos pais dificilmente havia uma chuva torrencial, mas eles declaravam que Deus a tinha causado quando caia; e eles oravam por chuva, pela luz do sol e pelas colheitas; bem como quando um palheiro estava em chamas, ou quando uma fome desolava a terra; nossos pais diziam: o Senhor fez isso. Mas agora, os nossos filósofos tentam explicar tudo, e atribuem todos os fenômenos a causas secundárias. Mas irmãos, que relacionemos a origem e a direção de todas as coisas ao Senhor, e ao Senhor somente.

V. Finalmente, os DONS CONSOLADORES são de Deus. Oh, que dons consolares alguns de nós desfrutam nas ordenanças da casa de Deus, e num ministério que é produtivo. Porém, quantas igrejas não têm um ministério desse tipo; e por que nós o temos, então? Porque Deus faz uma diferença. Alguns aqui têm uma fé vigorosa, e podem rir das impossibilidades; podemos cantar um cântico em todos os tempos – tanto nas tempestades como na calma. Mas, há outros com uma pequena fé que estão prestes a desmoronar a cada vento. Nós atribuímos uma fé eminente inteiramente a Deus. Um nasce com um temperamento melancólico, e vê uma tempestade até mesmo na calma; enquanto outro é alegre, e vê uma linha prateada em cada nuvem, embora estejam escuras, e é um homem feliz. Porém, por que isto? Os dons consoladores vêm de Deus. E, então, observem que nós mesmos somos diferentes de vez em quando. Por que há épocas que podemos ter um relacionamento bendito com o céu, e somos permitidos olhar além do véu? Mas repentinamente, estes deleitosas prazeres se vão. Porém, murmuramos por isso? Não é licito que Ele faça o que quer com o que é Seu? Não pode tomar de volta o que tinha dado? Os consolos que possuímos são Seus, antes de serem nossos.  

“E ainda que Tu a todos tomasse,
Todavia, não me queixaria,
Antes de serem por mim possuídos
Eles eram totalmente Teus”.


Não há alegria do Espírito – não há bendita esperança – nenhuma fé vigorosa – nenhum desejo ardente – nem íntima comunhão com Cristo, que não seja um dom de Deus, e que não devamos atribuir a Ele. Quando estou em trevas e sofro decepções, levanto os meus olhos e digo: Ele dá salmos durante a noite; e quando tenho do que me regozijar, direi: meu monte permanecerá firme para sempre. O Senhor é o Soberano Jeová; e, portanto, prostrado aos seus pés estou, e se pereço, perecerei ali.

Porém, permiti que vos diga ,irmãos, que esta doutrina da Soberania Divina está longe de fazer com que senteis em indolência; espero em Deus que ela vos humilhe, e vos leve a dizer: “Eu sou indigno da menor de todas as Tuas misericórdias. Reconheço que Tu tens o direito de fazer comigo o que quiser. Se me esmagas, um verme miserável, Tu não serás desonrado; não tenho direito de pedir que tenhas compaixão de mim; apenas te rogo que tenhas misericórdia de mim. Senhor, se Tu quiseres, és capaz de me perdoar, e Tu nunca destes graça a alguém que a procure mais. Porque estou vazio, sacia-me com o pão do céu; porque estou nu, veste-me com Tua roupa; porque estou morto; dá-me vida”. Se elevares este pedido com toda tua alma e com toda tua mente, ainda que Jeová seja soberano, Ele estenderá Seu cetro e te salvará, e viverás para Lhe adorar na beleza da santidade, amando e bendizendo Sua graciosa Soberania. “O que crer ” é a declaração da Escritura “e for batizado, será salvo; mas o que não crer será condenado”. O que crer em Cristo somente, e for batizado com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, será salvo, mas o que rejeitar a Cristo e não crer nEle, será condenado. Este é o Soberano decreto e proclamação do céu – curve-se diante dele, reconheça-o, obedeça-o e que Deus te abençoe.

                               --------------------------------------------------------------
                                                      Um Sermão (Nº. 77) 

             Pregado na Manhã de Domingo, 04 de Maio de 1856, por C. H. Spurgeon 

                         Na Capela de New Park Street, Southwark - Inglaterra


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 20 de Março de 2004. (monergismo)

___________________________________________

Nenhum comentário:

Postar um comentário