segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ressurreição Espiritual por Charles Haddon Spurgeon


C. H. Spurgeon


Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, ele nos vivificou juntamente Com Cristo”. (Efésios 2:1).

Obs.: (Texto sem revisão e diagramação!)

Certamente, meus queridos ouvintes, vocês esperam que eu chame sua atenção, para o glorioso acontecimento que tem sua memória celebrada neste dia pela Igreja cristã. No entanto, isso não é minha intenção. Mas se o assunto que tenho no coração para meditar com vocês não é a ressurreição de Cristo, ao menos podemos dizer que lhe diz respeito em alguma medida. O assunto é este: a ressurreição espiritual do homem pecador e perdido, pelo Espírito de Deus, nesta vida..

Foi aos cristãos de Éfeso, vocês sabem, que o Apóstolo dirigiu as palavras de meu texto; mas elas se aplicam não com menos verdade a todos aqueles que, em uma época ou outra e em qualquer lugar desta terra habitável, foram eleitos em Jesus Cristo, comprados pelo seu sangue, justificados por sua graça. Sobre estes, também, é verdadeiro dizer que mortos em seus delitos e pecados, foram vivificados pelo Espírito de Deus.
Meus irmãos, que espetáculo solene é aquele de um cadáver! Ontem à noite, quando tentei me colocar, por imaginação, diante da realidade da morte, minha alma, eu confesso, recuou assustada. Eu fiquei como um desesperado! “O quê? Disse para mim mesmo, é verdade que este corpo onde sinto o palpitar da vida, será logo um festim para os vermes? Que fora e dentro destas órbitas onde agora meu olhos estão, romperão imundas criaturas, progenitores da corrupção? Que estes membros, hoje cheios de vigor, estendidos em uma imobilidade fria, na abjeta fraqueza da morte, se tornarão um objeto de repulsa invencível, mesmo por aqueles que mais me amam, de sorte que eles gritarão com Abraão: Tirem meu morto de diante de mim !?” Talvez, meus irmãos, vocês não consigam ainda perceber, em todo seu horror, este quadro lúgubre. Diga: não parece estranho, não parece incrível, que você que veio, esta manhã, ao lugar de culto, seja um dia levado ao sepulcro? Que estes olhos que neste momento estão fixos em você, serão velados por uma obscuridade eterna; que estas línguas que há pouco faziam ouvir uma santa melodia, logo serão nada mais que um pouco de lama; que você, meu querido ouvinte, que vejo neste instante diante de mim, com todo o vigor da idade e com saúde, será incapaz de mover um músculo, de articular um som, e se tornará uma massa inerte, filha da fossa e irmã da corrupção? Sem dúvida, ninguém ignora estas verdades sombrias; ninguém as pode revogar; mas não é verdade que, quando as aplicamos a nós mesmos, somos tentados a declará-las como uma impossibilidade? Ah! É que a morte exerce sobre nosso invólucro terrestre, danos tão assustadores, que esta admirável organização, obra-prima do Criador, ela faz em pedaços. É com dificuldade que nossa inteligência terrificada pode acompanha-la em sua obra de vandalismo!
Entretanto, queridos amigos, esforcem-se para fazer uma idéia, a mais exata possível do que é um cadáver, e quando conseguirem, digam para si, eu lhes peço, cada um em particular, que essa é a imagem empregada no meu texto para representar a condição de sua alma por natureza. Na verdade, o Apóstolo não poderia fazer uso de uma metáfora mais justa; porque da mesma maneira que um cadáver é passivo, inerte, insensível, pronto a se decompor, assim é a alma humana, se ela não for vivificada pela graça de Deus. Nós estamos mortos em nossos delitos e pecados; a morte habita em nós, e este germe de morte é suscetível a se desenvolver gradualmente, de tal sorte que, deixados a nós mesmos, poderíamos nos tornar com o tempo, objetos verdadeiramente hediondos, - isso por causa de nossos vícios e nossa corrupção moral, como o cadáver é hediondo por causa da corrupção material. Eis, meus irmãos, o que nos ensina a Escritura, no tocante ao estado moral do homem. Em todas as suas páginas, ela nos diz que desde a queda, o filho de Adão, por natureza está morto; que estar perdido e degradado, num senso espiritual, é estar privado de vida. Ela nos ensina, além disso, que se ele obtém a vida, isso só pode ser graças a uma verdadeira ressurreição operada em sua alma pelo Espírito de Deus, e que esta ressurreição, se deve não a algum mérito que o homem possa ter, mas unicamente ao bom prazer do Pai, a um ato totalmente gracioso de sua infinita misericórdia e soberania.
Esta é, repito, a doutrina que extraímos de todas as partes da Bíblia; é uma doutrina clara, formulada com uma notável precisão nas palavras de meu texto, à qual desejo, meus queridos ouvintes, chamar sua atenção durante alguns instantes. Farei o possível para que minha exposição seja ao mesmo tempo interessante e clara. Na esperança de atingir esse duplo objetivo, ilustrarei meu tema de uma maneira que, numa primeira abordagem, lhes parecerá, sem dúvida, um pouco estranha. Vocês se lembram que durante sua passagem pela terra, o Senhor Jesus fez três ressurreições? Não me consta que ele tenha feito outras. Em primeiro lugar, ressuscitou uma criança de doze anos, a filha de Jairo, que estendida sem vida sobre sua cama, se levantou imediatamente após Jesus pronunciar estas palavras: “Talitha, cumi!” Na segunda vez, Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, que deitado sobre seu esquife, era transportado para a sua tumba e que acordou de seu sono de morte por estas palavras: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” Enfim, a terceira e a mais memorável ressurreição operada por Jesus, foi a de Lázaro, o qual não estava mais nem sobre seu leito, nem a caminho da tumba, mas a quem a corrupção já tinha feito sua presa, quando o Senhor, pelo poder de sua palavra, o chamou à vida, gritando em alta voz: “Lázaro, sai para fora!”
Estes três feitos, meus queridos amigos, eu os transportarei, por assim dizer, para o domínio espiritual, e lhes empregarei como tipos ou imagens que representem sucessivamente AS DIFERENÇAS EXTERIORES QUE EXISTEM ENTRE AS ALMAS NÃO CONVERTIDAS, AINDA QUE SUA CONDIÇÃO SEJA FUNDAMENTALMENTE A MESMA; em segundo lugar, OS DIFERENTES MEIOS DE GRAÇA EMPREGADOS PARA VIVIFICAR OS PECADORES, AINDA QUE A VIDA PROCEDA SOMENTE DE UM ÚNICO AGENTE; e em último lugar, AS DIFERENTES MANIFESTAÇÕES DESTA VIDA, QUE NO ENTANTO, EM UM SENSO ABSOLUTO, É UNA.


I.
Eu disse que EXISTEM CERTAS DIFERENÇAS EXTERIORES ENTRE AS ALMAS NÃO CONVERTIDAS, MAS QUE SUA CONDIÇÃO É A MESMA. Acrescento que aquela condição, comum a todos, é a morte. Aproximem-se, meus irmãos, pela imaginação, da filha de Jairo. Vejam-na estendida sobre seu leito; não diriam que a vida ainda está nela ? Os lábios da sua mãe ainda roçam seu rosto; a mão de seu pai segura sua mão, e é difícil a estes pais se persuadirem que sua filha está morta; mas nada é mais verdadeiro que sua morte; tão morta como jamais esteve.
Vejam, agora, este jovem que levam para o sepulcro. Ele está completamente morto; descreva-me sua expressão; ele começa a se corromper; já a cor pálida, precursora da degradação, toma o seu rosto. Entretanto, ainda que a morte seja menos aparente naquela menina que neste jovem, propriamente falando, ela não está menos morta que ele, porque na realidade, na morte não há gradação. Mas eis um terceiro caso onde a morte se revela com mais evidência ainda. É aquele de Lázaro.
Lázaro, aquele cuja irmã Marta, disse: Senhor, ele já cheira mal, porque já é de quatro dias. Entretanto, notem meus irmãos, a filha de Jairo não estava menos morta que Lázaro. Havia diferença quanto à manifestação exterior da morte, mas não quanto à morte em si. Assim é com as almas que ainda não foram vivificadas pela graça de Deus. Eu tenho, sem nenhuma dúvida, neste instante diante de mim, algumas pessoas privilegiadas, que o olho fica alegre em contemplar. De todas as maneiras elas são uma beleza de se ver; belas por suas qualidades morais, como também por seu charme exterior. Parece mesmo que reúnem tudo o que é bom e desejável; e no entanto, se elas são não regeneradas (notem bem isto), elas estão mortas, completamente mortas ! Vejam a filha de Jairo. Não foi dito que ela não era mais que um cadáver ? Uma mão macia e piedosa não tinha ainda fechado os seus olhos; em seu olhar ainda brilhava um último reflexo de luz. Parece uma flor de lis há pouco destacada de sua haste; ela ainda não tinha perdido sua graça. O verme ainda não tinha começado a furar seu rosto ; as cores da vida ainda não tinham fenecido em sua face; ela parecia ainda pertencer ao mundo dos vivos. E mesmo vocês, amadas almas para quem falo, vocês possuem tudo o que o coração pode desejar, exceto a única coisa e mais necessária; se vocês tiverem o sopro divino, o amor do Salvador, não lhes falta absolutamente nada; mas, se vocês não estão unidos a Jesus por uma fé viva, é porque - eu lhes digo com pesar, mas tenho de lhes dizer - vocês estão mortos ! Vocês estão mortos ! Tão mortos quanto os últimos dos pecadores, ainda que sua morte não seja tão aparente.
Mas, ao lado da filha de Jairo, há, certamente, também neste auditório, pessoas que deram um passo a mais, diria eu, na morte espiritual. Há ainda neles, reconheço, algum resquício de bons sentimentos, mas eles começaram a ceder às suas inclinações más. Eles não são mais aqueles intemperantes sem pudor, blasfemadores sem freio; sua conduta não é mais tão escandalosa para que os seus não possam tolerá-los. Como o jovem de Naim, a corrupção encubada em seu interior, ainda não eclodiu abertamente.

Mas, que não abusem: ainda que eles não tenham descido ao último grau da depravação, ainda que o mundo não os expulse de seu seio, eles estão mortos! Eles estão mortos! Tão mortos como os últimos dos pecadores! E não há também daqueles entre estes que me escutam, daqueles homens mais vis, verdadeiros Lázaros espirituais, entre os que a morte revela seu mais odioso aspecto? Como os cadáveres em seu sepulcro, sua alma está em plena putrefação. Seus hábitos são abomináveis; sua conduta inspira inteiramente o horror mais profundo; eles foram colocados no index da sociedade que se respeita; a pedra, de alguma maneira, foi rolada sobre sua tumba. Eles perderam totalmente o senso moral, a tal ponto que aqueles que os conhecem, não querem sustentar nenhuma relação com eles, e parecem gritar à sua maneira: “Tirem este morto de diante de nós, porque não podemos suportar sua visão!” E, entretanto, meus irmãos, - eu insisto neste ponto - essas almas tão corrompidas, tão pervertidas, não estão, na realidade, mais mortas que as outras almas não regeneradas, assim como Lázaro não estava mais morto que a jovem a quem lhe faltava o sopro de vida. Os frutos da morte são mais visíveis, isso é verdade, em uns que em outros, mas todos, igualmente, foram privados da vida; todos, igualmente, necessitam ser vivificados por Jesus Cristo.
Mas, permitam-me, meus amigos, de entrar de alguns detalhes, e de lhes indicar os traços principais que constituem a diferença existente entre as três classes de almas sobre as quais acabo de falar. Para isso, continuemos a examinar o texto, e voltemos, primeiramente, à filha de Jairo. Eis aqui esta jovem. Olhem-na de novo. Sua visão está longe de lhes repugnar; em vez disso ela lhes atrai, não é verdade? Ela está morta, e no entanto, ela é ainda bela. Ainda que sem vida, ela está cheia de beleza e
graça. Que contraste com aquele jovem ! Toda a beleza de seus traços desapareceu! Já é possível supor que os vermes já estão fazendo sua obra; toda a sua glória se desvaneceu. Que contraste, sobretudo com Lázaro ! Este não é mais que um poço de corrupção ! Mas, na filha de Jairo existe, repito, uma beleza exterior. Ocorre o mesmo com muitos daqueles que me ouvem neste momento. Não está, com efeito, cheia de graça aquela jovem alma em quem o sopro impuro do pecado parece ter respeitado sua candura? Quem não lhe poderia amar ? Não é ela amável ? Não é ela bela entre todas? Não é ela digna de ser admirada, até mesmo de ser imitada ? Ah ! Sem dúvida ela é tudo isso; talvez, mais ainda. Eu sou o primeiro a concordar. Mas, infelizmente! Infelizmente! Deus o Santo Espírito ainda não soprou sobre ela; ela não reconheceu Jesus como seu Salvador, nem implorou seu perdão; ela possui tudo, exceto a verdadeira religião; e por isso ela está morta, - morta apesar de toda sua beleza, apesar todos os seus atrativos ! Oh ! Minha irmã, minha querida irmã, por que é preciso que seja assim ? Por que é preciso que você, tão doce, tão amável, tão meiga, tão compassiva, e eu sou obrigado a contá-la entre aqueles que estão mortos em seus delitos e pecados? Como meu Mestre chorou pelo jovem rico, que tinha guardado todos os mandamentos, mas a quem faltava uma coisa, assim eu choro hoje por você ! Sim, choro ao pensar que você, ornada de qualidades tão preciosas, de tantos dons do coração e do espírito, você não está menos mergulhada na morte! Por que, não tenha nenhuma ilusão. Você está morta por tanto tempo, porque não põe sua fé em Cristo. Sua bondade, virtude, excelência, não lhe servirão de nada; você está morta, e não poderá viver se Jesus não lhe der a vida.
Notem, além disso, que a filha de Jairo está ainda rodeada de amigos. Ela acabou de exalar o último suspiro e sua mãe a cobre de ternos beijos. Oh! É possível mesmo que ela esteja morta ? As carícias que lhe fazem, não conseguirão reanimá-la? E as lágrimas ainda quentes que caem sobre ela, não bastarão para fecundar essa terra fria, é verdade, mas que parece ainda tão rica, para que a vida brote de seu seio ? Infelizmente, não! Essas carícias, essas lágrimas, são estéreis; falta a semente da vida; a criança não respira mais; porém, alguém a envolverá nos braços, alguém a cobrirá de testemunhos de amor. Que contraste com aquele jovem ! Ele está estendido sobre seu caixão; ninguém lhe tocará mais, e se alguém o tocar, ficará imundo. Que contraste sobretudo com Lázaro ! Uma pedra está selada sobre ele. Não acontece o mesmo com vocês ? Almas amadas sobre as quais já me referi? Vocês não são objeto do amor de todos ? O povo de Deus mesmo, lhes dirige uma afeição cordial; ele lhes procura, estima, aprova. Seu pastor ora freqüentemente por vocês. Admitidas nas assembléias dos filhos de Sião, vocês se assentam com eles como se deles fizessem parte; vocês ouvem o que eles ouvem; vocês cantam o que eles cantam. E no entanto, infelizmente, a vocês lhes diria: vocês estão ainda na morte. Só lhes falta uma coisa - e é a única que lhes pode salvar; só lhes falta uma coisa - a vida. Em vão os filhos de Deus lhes abrem os braços. Em vão eles lhes acolhem em sua companhia; eles não saberiam acender em vocês esta fagulha sagrada de vida; e se nunca vocês a obtêm, saibam, vocês devem se juntar ao maior dos pecadores para repetir com o Apóstolo: quando ainda estávamos mortos em nossos delitos e pecados, Deus nos vivificou juntamente com Cristo.
Mas, consideremos, ainda, a menina. Notem que ela não foi vestida dos sinais da morte. Nem as faixas e os lençóis a envolvem. Ninguém tirou suas roupas comuns. Ela está vestida exatamente como estava no dia em que, sentindo os primeiros sintomas de sua doença, foi estendida na cama. Ninguém a preparou definitivamente para a morte. Não ocorre o mesmo com o filho da viúva - os aparatos para a sepultura o envolvem. Nem ocorre com Lázaro - está com os pés e mãos atados. Mas outra vez lhes digo, a filha de Jairo está ainda vestida com a roupa típica dos vivos. Assim é a alma simples e ingênua da qual falo. Até o momento, ela parece não ter nenhum hábito pecaminoso, nenhuma tendência má declarada; e enquanto que aquele jovem já está aprisionado nos lençóis de sua má conduta, e que o pecador envelhecido nos seus vícios está ligado pés e mãos em suas paixões desordenadas, esta alma se veste de todos os ornamentos exteriores da piedade. Ela age como os cristãos. Ela fala como eles. Sua conduta parece pura, digna de elogios, irrepreensível. É com muito custo que nela se poderia discernir algum erro. Infelizmente ! Infelizmente ! Querida alma, por que é preciso que tão bela jóia, de aparência tão amável, esteja coberta pela morte ? Inutilmente você enfeitou sua fronte com a jóia da caridade; inutilmente você cingiu seus rins com o casto vestido da pureza exterior; infelizmente, minha irmã, é preciso que eu lhe diga - se você não nasceu de novo, você está ainda na morte ! Sua excelência se desvanecerá como a brisa; suas boas obras passarão como a fumaça, e no dia do julgamento, você será separada dos justos, a menos que Deus lhe dê a vida. Oh! Eu gemo, eu gemo amargamente sobre esta multidão de jovens almas que parecem ter sido preservadas até aqui de toda a sujeira do mundo, mas que não estão menos sem vida e salvação! Oh! Quisera Deus, rapaz, quisera Deus, moça, que desde seus primeiros anos, vocês tivessem sido vivificados pelo Espírito !
Vejam, meus irmãos, observem ainda um detalhe. No caso da jovem, a morte era, por assim dizer, uma coisa secreta. Foi no seu quarto que a menina deu seu último suspiro; foi em seu quarto que seu corpo inanimado repousava, e nada provavelmente deixava suspeitar aos de fora o doloroso mistério escondido naquela casa de luto. Não foi assim com o jovem, porque o haviam transportado até às portas da cidade, e muita gente o tinha visto; nem Lázaro, porque os Judeus vieram de Jerusalém para chorar sobre sua tumba. Mas, a morte da filha de Jairo não teve esse caráter de publicidade, e o mesmo ocorre com as almas que tomei como tipo. Até o momento, seu pecado se esconde na sombra; ele está totalmente no interior. A cobiça foi bem concebida em seu coração, mas o pecado ainda não veio à luz; o germe das paixões está nelas, mas este germe impuro não se manifestou através de atos.
O jovem ainda não levou aos lábios a taça inebriante, ainda que freqüentemente uma voz sedutora lhe tenha oferecido sua doçura; a jovem não abandonou as sendas da virtude, ainda que quase sempre ela ouça as sugestões da vaidade. Em resumo, suas inclinações más, não ultrapassaram os limites do seu tribunal interior; ninguém, talvez, suponha sua existência. Infelizmente, meu irmão! Infelizmente, minha irmã! Como é triste considerar que você, cuja vida exterior é tão louvável, esconda, no entanto, impurezas secretas no quarto de seu coração, e que no centro mais íntimo de seu ser, você leve a morte espiritual, - morte tão verdadeira, ainda que menos evidente, como aquela do pecador mais escandaloso. Oh! Deus queira que você possa clamar ainda hoje: “Apesar de todas as nossas justiças, apesar de todas nossas virtudes, estávamos mortos, como os outros, em nossos delitos e pecados, mas Deus nos vivificou.”
Meus amigos, meus queridos amigos, sofram, eu insisto ainda sobre este ponto. Há almas neste auditório, a respeito das quais eu nutro vivas apreensões. Eu já disse, elas possuem tudo o que o coração pode querer, mas lhes falta uma coisa : elas não amam meu Mestre. Ó jovens, que freqüentam assiduamente a casa do Senhor, cujos muros são irrepreensíveis, por que é preciso que sua piedade seja como uma planta sem raiz ? Ó virgens de Sião, que sempre vemos na casa de oração, por que é preciso que você permaneça sem a graça de Deus no seu coração ? Tenha cuidado, eu lhes suplico, vocês, almas simples, ingênuas, amáveis, inocentes aos olhos dos homens ! Quando chegar o grande dia em que o Senhor separará, ainda uma vez, os vivos dos mortos, eu lhes declaro com dor, se vocês não estiverem convertidos, regenerados, vivificados pelo Espírito de Deus, apesar de toda sua excelência, vocês serão contados com os mortos !
Mas é tempo de deixarmos a jovem menina, para passar ao filho da viúva de Naim. Antes de tudo, observem, meus irmãos, que ele não está mais morto que a jovem; apenas ele está em um estágio mais avançado da morte, se posso assim falar. Venham, aproximemo-nos do cortejo fúnebre; façamos o caixão parar; contemplemos o corpo deitado. Vocês tremem, não é verdade? Vocês desviam o olhar. A aparência da pequena jovem era plena e cheia de cor, mas aqui, a face está escavada e a tez pálida. E os olhos? Oh ! Que mancha escura em volta ! Não lhes parece que os vermes vão logo aparecer, que a decomposição está se processando?
Uma parte de meus ouvintes é assim. Eles são como se estivessem no começo de sua juventude, enquanto seu comportamento estava ao abrigo de qualquer reprovação. Talvez tenham acabado de cair na rede da mulher estrangeira; eles começam a lançar-se na carreira da libertinagem; sua corrupção está para eclodir. Eles não são mais, como dizem, crianças no fim de sua infância. Não é tempo para que eles se emancipem ? Que outros se submetam à absurda escravidão das leis morais; quanto a eles, são livres; eles querem sê-lo. Querem levar vida alegre e assim eles se precipitam num turbilhão de prazeres carnais, de maneira que os sinais da morte espiritual se manifesta neles sempre com maior evidência. Notem mais, meus caros amigos, que se a jovem estava envolvida de cuidados, o jovem, ao contrário, ninguém quer tocá-lo; ele está estendido em seu caixão, e ainda que os homens o carreguem nos ombros, é também verdade que ele inspira a todos os que estão vivos uma repulsa instintiva. Jovem ! Você não se vê com esses traços ? Você não sabe que depois de algum tempo, o povo piedoso e amigo vai tomar distância de você? Ontem ainda, as lágrimas de sua mãe não rolaram em abundância, enquanto exortava seu jovem irmão a fugir de sua companhia, a não seguir seu exemplo ? Sua irmã, sua própria irmã, talvez ao lhe abraçar esta manhã, suplicava ao Senhor que lhe abençoasse nesta casa de oração, - sendo que ela mesma tem vergonha de você; sua conduta tornou-se tão leviana, seus propósitos tão mudados que ela cora ao lhe ver. Há também casas cristãs onde você, outrora, era bem-vindo; você dobrava o joelho com a família reunida; seu nome era mencionado na oração comunitária; mas no momento, suas visitas a essa casa tornam-se mais e mais raras, porque quando você vai lá , lhe recebem com reservas. O pai de família, por nenhum preço, gostaria que seu filho se ligasse a você, porque sabe que você poderia contaminá-lo. Seu amigo, não vem mais, como antes, sentar-se a seu lado para tratar de coisas santas; se ele ainda lhe recebe em sua casa, é simplesmente por boa educação; mas ele não pode mais lhe tratar com sua antiga cordialidade, porque sente que entre sua alma e a sua, não existe mais nenhuma ligação de simpatia. O povo de Deus, paralelamente, lhe testemunha com frieza; ele não lhe rejeita ainda de maneira aberta, mas há, na relação dele com você, um constrangimento que prova claramente que seu estado de morte lhe é bem conhecido.
Um outro ponto de diferença entre o filho da viúva e a filha de Jairo, é que enquanto esta estava vestida com a roupa típica dos vivos, o outro já estava envolto em sua mortalha. E você também, rapaz; você está envolvido em hábitos viciosos. Você sabe que o diabo, com sua mão de ferro, oprime sua alma sempre mais e fortemente. Houve um tempo em que você podia ainda resistir a essa opressão; você dizia que era mestre de seus prazeres; mas agora, o prazer é seu mestre. Jovem ! Eu apelo à sua consciência; seus caminhos não são caminhos de iniqüidade ? Você ousaria negá-lo ? Sem dúvida, você ainda não chegou nos limites da imoralidade e da infâmia; mas, na verdade, na verdade, eu lhe digo meu irmão : você está morto ! Você está morto ! E se o Espírito de Deus não lhe vivificar, você será jogado no vale da Geena, para ser comido pelos vermes que não morrem jamais, mas devoram a alma durante a eternidade. Ah, Jovem ! Jovem ! Eu choro por você, porque ainda que a pedra do sepulcro não esteja sobre você, e sua corrupção moral não esteja tão avançada que lhe faça um objeto de horror e espanto, entretanto, você já deu vários passos na carreira do vício, e quem pode dizer aonde vai parar ? Tome cuidado ! O pecado é um barranco escorregadio e sobre este barranco, quem quer parar não consegue. Quando o verme do sepulcro começou sua devastação, podíamos com o dedo em riste lhe dizer :"Pára". Não, ele prosseguiu sua obra de destruição até o fim. Oh ! Jovem. Deus queira lhe vivificar, antes que você seja tragado por esta consumação de morte que o inferno suspira em lhe ver atingido, e da qual o céu é o único que pode lhe fazer escapar.
Uma última observação sobre o filho da viúva de Naim. O quarto da menina, como já dissemos, foi o único que testemunhou sua morte; mas no caso deste jovem, ao contrário, a morte se mostrava a todos, porque Jesus encontrou o cortejo às portas da cidade. É assim que, entre a primeira classe de almas que tentei descrever, o pecado é mais ou menos secreto; mas em você, meu caro jovem, ele é patente. Ele é manifesto. Você não teme pecar à luz do dia e aos olhos de Deus. Seu desregramento não é mistério para ninguém; mesmo porque, você não está mais preocupado em salvar as aparências. "Eu não sou hipócrita", você diz em um tom desafiador, "não tenho nenhuma pretensão de ser santo; não me envergonho de alguns desvios da juventude." Ah, Jovem, jovem ! Enquanto você fala assim, quem sabe se seu pai não grita em sua amargura de alma : "Quisera Deus que eu estivesse morto antes de ver meu filho conduzir-se assim ! Quisera Deus que ele estivesse deitado na tumba, antes de se engajar na carreira do vício ! Quisera Deus que o dia em que o contemplei pela primeira vez, quando meus olhos se alegraram pela visão de meu filho, ele tivesse sido subitamente tolhido pela morte ! Oh ! Sim, quisera Deus que sua alma infantil tivesse sido recolhida ao céu, e que não tivesse vivido para fazer descer dolorosamente ao sepulcro os meus cabelos brancos !" Jovem, você sabe : seu mal comportamento confessado, seu mal comportamento exposto, por assim dizer, às portas da cidade, traz vergonha sobre a casa de seu pai, inunda de dor o coração de sua mãe. Oh ! Eu lhe suplico, pára ! Oh ! Senhor Jesus, toque o caixão neste instante ! Pare a pobre alma que caminha pela via da perdição, e lhe ordene :"Levanta-te !" Então, esta alma, ressuscitada em novidade de vida, poderá gritar conosco, que por sua graça já gozamos da vida : "Quando estávamos mortos em nossos delitos e pecados, Deus nos vivificou juntamente com Cristo, por meio de seu Espírito !"
E agora, nós chegamos à terceira e última ressurreição feita por nosso Senhor : aquela de Lázaro. Morto e enterrado. Oh ! Meus caros amigos. Eu não posso fazê-los ver a Lázaro em seu sepulcro ! Retirem-se ! Retirem-se para longe dele ! Para onde fugir e escapar do odor infecto deste corpo em putrefação ? Não somente todo o vestígio de beleza desapareceu, mas é difícil ver nele alguma forma humana. Oh ! Terrível espetáculo ! Eu não posso empreender nenhuma descrição; as palavras me faltariam; além disso, vocês não suportariam escutar-me até o fim. Como também, meus irmãos, eu não encontraria as expressões adequadas para descrever o estado moral de um certo tipo de pecadores. Meu rosto coraria de confusão se tivesse que lhes revelar as obras das trevas produzidas cada dia pelos ímpios deste mundo; produzidas, talvez, por alguns dos que me ouvem neste momento. Ah ! Como é terrível a última fase da morte física; a última fase da degradação. Mas aúltima fase do pecado, quão mais terrível ainda !
Vários de nossos escritores modernos, parecem ter uma aptidão particular para revirar aquela lama, para modificar este lodo impuro; mas eu lhes confesso, esta aptidão não é a minha. Também, não vou lhes descrever, meus irmãos, as sujeiras e torpezas do pecador consumado. Eu farei silêncio sobre as abomináveis perversões, concupiscências degradantes, as ações ignóbeis e diabólicas nas quais se afundam aqueles em quem a morte espiritual produziu todos dos seus efeitos nocivos e o pecado se manifestou com toda a sua terrível fealdade. Há, neste auditório, pessoas que pertençam a esta classe
de pecadores ? Pode ser que não seja um grupo numeroso, mas, ouso afirmar, e não será inútil dizer que, como a filha de Jairo, eles não são procurados, nem são objetos do carinho dos cristãos, ou como o jovem de Naim, acompanhados de longe até sua última morada; não, os honestos fogem quando eles se aproximam, tanto é o horror que eles lhes inspiram. Suas mulheres, quando eles entram em suas casas à noite, se escondem para evitar o seu contato. Eles são apontados, são objeto de reprovação de todos. Como a prostituta, da qual nós desviamos o olhar quando a encontramos na rua. Como o pervertido escandaloso, a quem nós nos apressamos em ceder passagem, de medo que ele nos toque ao passar. Estes infelizes estão enterrados no sepulcro de seus vícios; os estigmas da morte espiritual estão impressos em seus rostos; a opinião pública rolou a pedra sobre eles. Eles sabem que para o seu próximo, eles se tornaram objeto de desprezo. Aqui mesmo, neste lugar de culto, eles se sentem incomodados, porque eles não ignoram que se seu vizinho soubesse o que eles são, ele se afastaria aterrorizado. E notem bem um detalhe, meus irmãos : enquanto que no caso do jovem, a morte era de
domínio público, no caso de Lázaro, como no da filha de Jairo, ela está escondida, dentro de estreitos limites; somente que, no caso de Lázaro, nãoé mais no quarto fúnebre que ela se esconde, mas na noite da tumba. Imagem chocante do que há no mundo moral.

De fato, quando um pecador está mergulhado no pecado apenas pela metade, ele peca abertamente. Mas quando mergulha com o corpo inteiro, suas paixões tornam-se tão depravadas que ele é obrigado a praticá-las em segredo. Ele precisa, então, do silêncio e escuridão do sepulcro. Suas concupiscências são de natureza tão detestável, que ele só pode lhes saciar à meia noite; sua corrupção é tão revoltante, que ela precisa ser envolvida pelos lençóis espessos das trevas. Talvez esse Lázaro espiritual esteja na condição mais abjeta; talvez esconda sua vergonhosa existência em algum canto infecto de alguma rua escura. Mas, talvez, ele pertença ao que chamamos de nata superior da sociedade e habite em mansões suntuosas. Ah ! Meus irmãos. Eu lhes direi brevemente, com base nas confissões que me vêm constantemente fazer as almas trabalhadas e arrependidas; Eu me envergonho pela humanidade. Até nas mais altas esferas da escala social, se praticam as mais vergonhosas enormidades. Há em meu rebanho, em minha Igreja, infelizes criaturas cuja perda foi consumada pelos homens de grande nome, de bom berço, altamente colocados, influentes. O atrevimento em minha fala talvez lhes surpreenda, mas por que teria medo de falar o que os outros não têm medo de fazer ? O embaixador de Deus deveria ser menos ousado em repreender do que os homens são para pecar ? Sim, eu lhes declaro fortemente. Em todos os ramos da sociedade, há almas que infectam as narinas do Todo-poderoso. Almas cuja corrupção é mais terrível do que poderíamos dizer ! Elas têm que enterrar suas desordens na tumba do mistério, sem o que elas seriam banidas da sociedade - eu estava quase para dizer da existência ! Entretanto, ó admirável poder da graça de Deus ! Esta última classe de pecadores pode ser salva tanto quanto a primeira. Lázaro, já vitimado pela corrupção, pôde também, confortavelmente, sair da tumba, como a jovem de seu leito. A criatura mais vil, mais depravada, pode, como qualquer outra, ressuscitar em novidade de vida, e ser levada a gritar : "Quando estava morto em meus delitos e pecados, Deus me vivificou por Cristo." Eu espero, meus queridos ouvintes, que vocês tenham se agarrado bem firme à verdade sobre a qual me estendi tão longamente, a saber : que todos os homens, sem exceção, estão por natureza igualmente mortos, mas que a morte neles se manifesta em aspectos diferentes.

II
Eu abordo agora, um outro aspecto de meu assunto. HÁ DIVERSIDADE NOS MEIOS EMPREGADOS PARA VIVIFICAR OS PECADORES, AINDA QUE A VIDA PROCEDA DE UM ÚNICO E MESMO AGENTE. Esta é a segunda verdade que nossa abordagem faz saltar de maneira surpreendente. De fato, a filha de Jairo, o jovem filho da viúva e Lázaro, foram ressuscitados pela mesma pessoa, isto é, por Jesus. Mas a maneira como estas três ressurreições foram operadas, apresenta notáveis diferenças. Quanto à menina, lemos no Evangelho que Jesus tendo segurado em sua mão, lhe disse simplesmente : "Menina, levanta-te." Não foi preciso mais que isso. Uma voz doce e sutil, um leve toque, nenhum barulho, nenhum estrondo, e a menina acordou de seu sono de morte; as pulsações de seu coração retomaram seu ritmo de costume. É assim, meus irmãos, como Deus age freqüentemente em relação às almas puras segundo o mundo, que ele quer converter. Para lhes despertar, ele não usa nem os terrores do Sinai, nem o fogo flamejante, nem a nuvem espessa, nem a tempestade. Ele se limita a lhes abrir o coração, como fez a Lidia, a fim de que ela recebesse a Palavra. A graça divina desce sobre tais almas docemente e sem barulho, como o orvalho sobre as flores. Quando se trata de pecadores endurecidos, esta graça cai sobre eles em torrentes impetuosas, mas é em suaves chuvas que ela se derrama habitualmente sobre as almas que estão ainda na primeira fase da morte espiritual.
O Espírito apenas lhes toca suavemente com seu sopro. Talvez elas mesmas tenham dificuldade em crer na realidade de sua conversão; mas que se assegurem : se elas têm a vida, foi Jesus quem as vivificou, e não obstante tenha sido menos aparente que as outras, sua conversão não é menos verdadeira.

E o filho da viúva de Naim. Recobrou a vida da mesma maneira que a menina ? Não. Observem que, enquanto aquela recebeu a vida no interior de seu quarto, a este foi em público, em plena rua, que ela lhe foi dada. Observem ainda que, neste novo caso, Jesus não tocou o morto, mas o esquife; e os que lhe levavam, pararam. Depois disso, o Senhor pronunciou em alta voz estas palavras impressionantes: “Jovem, eu te digo, levanta-te!” Assim, enquanto Jesus comunica vida nova à menina com uma doce pressão da mão, no caso do menino, o mesmo resultado é obtido, não pelo toque, mas parando seu esquife.É assim que o Senhor agirá provavelmente com você, ó jovem, se ele resolver lhe vivificar. Ele começará por lhe retirar suas ocasiões de queda, seus meios de pecado. A seus companheiros de prazer que, por seus maus exemplos, lhe levam para o sepulcro do vício, ele ordenará que parem. Então, haverá durante algum tempo em sua vida, uma reforma parcial, e finalmente você ouvirá em sua alma uma voz forte e solene que lhe dirá : “Jovem, eu te digo, levanta-te!”.
Em relação à ressurreição de Lázaro, que aparentemente parecia quase impossível, eu lhes rogo, meus caros amigos, releiam com atenção os preparativos extraordinários que o Senhor julgou necessário fazer precedê-la.
No momento de ressuscitar a filha de Jairo, Jesus tinha atravessado o quarto, o sorriso nos lábios, dizendo: “Ela não está morta, mas dorme”. No momento da ressurreição do filho da viúva, ele tinha dito a ela: “Não chore”. Mas nas circunstâncias que estamos considerando, Jesus é mais grave, mais sombrio. Ele está diante de um cadáver se corrompendo em sua tumba. Como sua alma não estaria entristecida ? É nesta ocasião que o evangelista nos diz : E Jesus chorou. E depois que chorou, tremeu dentro de si. Depois ele diz: “Tirai a pedra”. Em seguida, elevando os olhos ao céu, pronunciou esta sublime invocação: “Meu Pai, eu te dou graças por teres me ouvido”. Enfim, depois de recolher-se assim, gritou em alta voz: “Lázaro! Sai para fora!” Coisa digna de nota, esta expressão. Ele gritou em alta voz. Nós não encontramos isso no relato das outras duas ressurreições. Jesus falou aos três mortos. Foi sua palavra que os vivificou, mas parece não ter elevado a voz, exceto em um único caso - o caso de Lázaro.
Há neste auditório uma alma vil entre as vis ? Um ser que chegou ao mais baixo degrau da depravação? Ah! Pecador. Eu lhe direi : possa meu Salvador lhe vivificar ! Ele pode fazê-lo. Mas saiba, isso lhe custará muitas lágrimas ! Sim, quando ele vier lhe disputar com os horrores da dissolução e lhe arrancar desse tenebroso sepulcro onde você afunda em seus vícios, Jesus virá chorando sobre seus crimes, gemendo sobre os horríveis danos que a morte espiritual fez em sua alma ! E mais, há uma pedra sobre você para ser retirada : seus hábitos pecaminosos. E mesmo quando esta pedra tiver sido levantada de sobre você, um som doce e sutil não poderia lhe acordar. Não. Para lhe converter, é preciso nada menos que a voz tremenda do Eterno; esta voz que faz tremer o deserto e quebra os cedros do Líbano. Bunyan, o imortal autor do Peregrino, era um destes Lázaros espirituais. Que meios tremendos foram empregados com ele ! Pensamentos terríveis, angústias tenebrosas, abalos medonhos, - tudo foi feito para lhe vivificar e trazer à salvação. Não diga então, ó pecador, que Deus não lhe ama, se ele terrifica sua alma pelos trovões do Sinai; mas reconheça logo que você estava profundamente mergulhado na morte, para que uma voz menos formidável que a de Cristo pudesse bater em suas orelhas.


III
Mas cheguei à última parte de meu tema. AINDA QUE A VIDA SEJA UMA, ELA SE MANIFESTA DE MANEIRA DIFERENTE. De fato, as necessidades, as experiências, as aspirações de todos os cristãos estão longe de ser as mesmas. Eu teria muito a dizer sobre este ponto, mas sinto que me falta tempo para desenvolvê-lo de uma maneira satisfatória. Depois de ressuscitar os três mortos sobre os quais nos ativemos, o que fez Jesus? “Dá-lhe de comer” - esta foi sua primeira recomendação dada à mãe da jovem menina. Esse foi também o seu primeiro cuidado com o jovem rapaz.
“Desatai-o e deixai-o ir” - esta foi sua primeira ordem com respeito a Lázaro. Parece-me que estas diferentes palavras nos revelam, respectivamente, não somente as necessidades dessas pessoas a quem Jesus acabava de dar a vida, mas também falam das três classes de almas a que temos nos referido. Quando uma alma se converteu antes de ter cedido às seduções do mundo, quando ela foi vivificada pela graça de Deus antes que o germe da morte que está em seu seio tenha se desenvolvido, a nova vida que recebeu se manifesta nela, sobretudo, por um desejo de ser nutrida; de sorte que esta injunção de Jesus corresponde perfeitamente às suas necessidades -"Dá-lhe de comer". Sim, um alimento sadio, uma sólida instrução, eis o que é preciso dar aos novos convertidos. Em geral pouco esclarecidos, eles têm necessidade de ser edificados na fé. Com freqüência, suas idéias sobre o pecado e sobre a salvação não são claras como daquelas almas chamadas ao conhecimento de Cristo, quando já estavam mais avançadas na vida ou no mal. Também, o leite espiritual e puro do Evangelho é mais necessário àquela primeira classe de crentes, do que qualquer outra. Que os ministros da Palavra velem com um cuidado todo particular sobre as ovelhas de seu rebanho; e quando novas almas entrarem no redil, que não esqueçam da ordem do seu Mestre : "Apascente minhas ovelhas". E vocês, jovens, não sejam negligentes em satisfazer essa fome e sede de conhecimentos espirituais, traço distintivo pelo qual se manifesta em vocês a vida divina. Busquem instrução junto ao seu pastor; busquem-na em bons livros; procurem-na, sobretudo, na Escritura. Tal deve ser sua atividade principal - "Dá-lhe de comer". Quanto ao filho da viúva, nos diz o texto sagrado, Jesus o deu à sua mãe. O mesmo, Jesus fará com você, jovem rapaz, se ele lhe fizer passar da morte para a vida. Filho, seu lugar de predileção eram os joelhos de sua mãe, e se Deus não havia lhe convertido antes, é ainda para junto da sua mãe que ele lhe fará voltar. Você procurará com zelo a doçura da vida doméstica, as alegrias puras da família. Ah ! Nada há mais poderoso que a graça divina para estreitar os laços que o pecado havia desfeito. Quando um jovem se entrega à dissipação, logo se afasta da carinhosa influência de uma irmã, da atenção vigilante de uma mãe; mas no momento em que seu coração é tocado, ele sente, novamente, a necessidade do cuidado delas e experimenta ao lado delas um sentimento que nunca antes tinha conhecido. E esta atração não acontecerá somente em relação a seus parentes segundo a carne, mas em relação à grande família dos filhos de Deus. Da mesma maneira que Cristo deu o filho da viúva de Naim à sua mãe, assim, ao lhe comunicar a vida, ele lhe porá nos braços da Igreja, a mãe espiritual de todos os crentes. Portanto, quando você for vivificado, procure sempre com mais zelo a companhia dos justos; porque da mesma maneira que as más alianças lhe transportavam para o sepulcro da perdição, você terá necessidade do apoio de amigos cristãos para lhe sustentar na marcha em direção ao céu.

Chegamos, enfim, à ordem de Jesus relativamente a Lázaro: “Desatai-o e deixai-o ir”. Eu confesso que não posso explicar por que o filho da viúva não estava envolto em faixas como Lázaro. Tenho examinado, inutilmente, inúmeras obras que tratam dos hábitos e costumes orientais. Não consegui elucidar esse fato que, no entanto, é tão evidente no texto sagrado. Nos é dito, com efeito, que logo que Jesus se dirigiu ao jovem, este se assentou e começou a falar.

Enquanto que Lázaro, preso em suas bandagens que tolhiam seus movimentos, e a cabeça envolvida por um lenço que lhe impedia, provavelmente, de articular algum som, parece ter saído do sepulcro com grande dificuldade. Repito, como explicar esta diferença?
Eu estaria inclinado a pensar, que devemos procurar a causa na diferença de classe social. O jovem era filho de uma viúva, que talvez não tenha podido envolver seu filho a não ser em lençóis grosseiros, enquanto que Lázaro, sendo mais rico, foi enfaixado com cuidado, seguindo o costume daquele tempo. O que quer que seja, esse detalhe em si mesmo é de pouca importância, mas o que desejo que vocês notem, meus caros amigos, é a aplicação que podemos fazer da terceira classe de pecadores sobre a qual temos falado. O Senhor, quando os ressuscita, age com o jovem da mesma maneira que fez com Lázaro : depois de lhes dar a vida, ordena que sejam postos em liberdade; ele lhes ajuda a desvencilharem-se de seus hábitos pecaminosos, a romper com os seus vícios. Também, ainda que a nova vida que receberam, em seu princípio e em sua natureza seja exatamente a mesma que aquela que dinamiza todos os filhos de Deus sem exceção, ela se manifesta, mais freqüentemente, de uma maneira totalmente diferente. Para estes, o grande desafio não é nem crescer no conhecimento, nem de andar na comunhão dos santos; não, eles têm que fazer tudo quanto podem, para se desembaraçarem do lençol de seus pecados, para se despojarem de suas paixões carnais. Talvez, infelizmente até à morte, deverão rasgar, peça após peça, farrapo após farrapo, as cadeias que garrotavam suas almas. Este está preso em sua intemperança - oh ! que esforços desesperados ele deverá fazer para dela se livrar. Aquele outro se debate contra seus desejos impuros - oh! que lutas obstinadas terá de travar, antes de poder vencê-los. Um terceiro combate contra seu hábito de jurar - oh! que brava fé terá que ter para refrear as más expressões, sempre prontas a subir sobre seus lábios! Um outro ainda, vagueia com seu amor pelos prazeres e vaidades do século; ele renunciou, mas quantas vezes seus velhos amigos lhe procurarão para lhe atrair novamente para o mundo! Para tais almas, a vida cristã não é outra coisa senão um penoso rasgar, um contínuo despojamento de velhos hábitos, de pecados enraizados, e às vezes essa ruptura só termina quando elas entram no repouso de seu Senhor.

E agora, meus queridos ouvintes, antes de lhes deixar tenho que lhes fazer esta séria pergunta: VOCÊS FORAM VIVIFICADOS? Cuidado! Que vocês sejam bons ou maus segundo o mundo, respeitados ou desprezados pelos homens, eu lhes declaro solenemente, se vocês não foram ressuscitados em novidade de vida, estão mortos em seus delitos; e se vocês deixarem este mundo nesse estado, estarão eternamente perdidos. Entretanto, que ninguém entre vocês se desespere. Cristo pode, ainda, lhes vivificar. Ele pode mesmo vivificar os mais degradados dos homens. Oh! Deus queira que hoje mesmo vocês sejam tocados para a salvação! Quisera Deus que esta voz potente que gritou: “Lázaro, sai para fora!” batesse neste instante nas orelhas dos grandes pecadores, de sorte que, abandonando o sepulcro de seus vícios, o intemperante passasse à sobriedade, a mulher de vida má, para a continência. Deus queira, sobretudo, oh! Deus queira abençoar abundantemente sua Palavra para que as almas jovens, puras, cândidas ainda, que a ouviram neste dia, possam compreender que por natureza estão mortas como as outras, e possam se tornar, desde agora, filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Quanto a vocês, meus caros amigos, que já tiveram a felicidade de serem vivificados, permitam-me lhes dirigir uma única palavra de exortação. Tomem cuidado com as ciladas do diabo. Não tenham dúvida; ele anda continuamente em derredor. Então, vigiem e orem. Que seus espíritos estejam sempre ocupados com bons pensamentos, e assim o adversário não poderá lhes prejudicar. Oh! Eu lhes digo ainda: desconfiem das artimanhas de Satanás. Guardem seus corações mais do que qualquer outra coisa que se possa guardar, porque é do coração que procedem as fontes da vida. Que Deus lhes abençoe, meus mui amados, pelo amor de Jesus.



Traduzido por: Paulo Athayde
Dezembro de 2005 (fonte: www.monergismo.com)

__________________________________________________

 LEIA OUTROS ARTIGOS RELACIONADOS ATRAVÉS DOS BLOGS ABAIXO:





.

Nenhum comentário:

Postar um comentário