domingo, 17 de janeiro de 2016

A Soberania de Deus por Arthur W. Pink


Tem-se ressaltado com freqüência que o requisito fundamental na exposição da Palavra de Deus é a necessidade de preservar o equilíbrio da Verdade. Com isto concordamos de coração. Duas coisas são indisputáveis: Deus é soberano, o homem é responsável. Neste livro procuramos demonstrar a primeira dessas verdades; em outras obras temos insistido na segunda. Que existe o perigo de salientar indevidamente uma delas, e de negligenciar a outra, reconhecemos sem hesitação; e a História nos oferece numerosos exemplos de ambos os casos. Ressaltar a soberania de Deus, sem acentuar, ao mesmo tempo, que a criatura é responsável, tende ao fatalismo; preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder de vista a soberania de Deus, é exaltar a criatura e rebaixar o Criador.
Quase todos os erros de doutrina são, na realidade, a Verdade pervertida, a Verdade mal distribuída, mal ensinada. O mais lindo rosto da terra, o mais encantador semblante, logo ficaria feio e de aparência desagradável, se um membro continuasse a crescer, e os demais não se desenvolvessem. A beleza é, primariamente, uma questão de proporções. Assim acontece com a Palavra de Deus: sua beleza e bem-aventurança se percebem melhor quando a multiplicidade da sua sabedoria é exibida em suas verdadeiras proporções. É nesse ponto que tantos fracassaram no passado. Determinada fase da Verdade de Deus tem impressionado uma pessoa ou outra de tal maneira que nela lhe concentrou toda a atenção, ficando excluídos todos os outros interesses. Esta ou aquela porção da Palavra de Deus se tem transformado em “doutrina predileta”, e, não raro, se tornou o distintivo de alguma corrente específica. Mas, o dever de cada servo de Deus é “anunciar todo o desígnio de Deus” (Atos 20:27).
É verdade que nos dias degenerados em que vivemos, quando de todos os lados se promove a exaltação do homem, e quando “super-homem” veio a ser expressão comum, há verdadeira necessidade de se dar ênfase ao fato glorioso da supremacia de Deus. Esse é tanto mais o caso quando está sendo mais expressamente negada essa supremacia. Mesmo em tal circunstância, porém, precisamos de muita sabedoria, para que não demonstremos um zelo “não segundo o entendimento”. As palavras, “o alimento no devido tempo”, devem estar sempre presentes no espírito do servo de Deus. A necessidade primária de uma congregação não pode ser a necessidade específica de outra. Se alguém é chamado para servir onde tem havido pregadores arminianos, a verdade negligenciada da soberania de Deus deve ser exposta - porém, com cuidado e cautela, para não se dar excesso de “alimento sólido” para as . “crianças”. É necessário ter em mente o exemplo de Jesus Cristo; conforme se lê em João 16:12: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Por outro lado, se eu for incumbido de orientar um estudante nitidamente calvinista, então a verdade da responsabilidade humana (nos seus muitos aspectos) pode ser acentuada com proveito . O que o pregador precisa anunciar não B aquilo que suas ovelhas mais gostam de ouvir, e, sim, aquilo que mais falta lhe faz, isto é, os aspectos da verdade que lhe são menos familiares, ou que menos se evidenciam em seu viver.
Por em prática o que acima ensinamos provavelmente exporá o pregador à acusação de ser um vira-casaca. Mas, que importa, contanto que tenha a aprovação do seu Mestre? Não se lhe exige que seja “coerente” consigo mesmo, nem quaisquer regras elaboradas pelos homens; seu dever é ser “coerente” com as Escrituras Sagradas. E, nas Escrituras, cada faceta da verdade é contrabalançada por algum outro aspecto da verdade. Há dois lados em tudo, até no caráter de Deus, pois ele é “luz” (I João 1:5), mas também é “amor” (I João 4:8). E, por essa razão, somos exortados a “considerar a bondade e a severidade de Deus” (Romanos 11:22). Pregar sempre um lado e excluir o outro B moldar uma caricatura do caráter divino.
Quando o Filho de Deus se encarnou, assumiu no mundo a “forma de servo” (Filipenses 2:6); mesmo assim, entretanto, na manjedoura era “Cristo, o Senhor” (Lucas 2:1 I)! Dizem as Escrituras: “Levai as cargas uns dos outros” (Gálatas 6:2), mas o mesmo capítulo insiste: “... cada um levará o seu próprio fardo” (Gálatas 6:6). Prescreve-se-nos que não nos devemos inquietar com o dia de amanhã (Mateus 6:34), porém, “se alguém não tem cuidado dos seus, e especialmente dos da sua própria casa, tem negado a fé, e é pior do que o descrente” (I Timóteo 5 :8). Nenhuma ovelha do rebanho de Cristo pode perecer (João 10:28, 29), mas a ordem dada aos crentes, determina: “confirmai a vossa vocação e eleição” (II Pedro 1:10). E assim poderíamos continuar, multiplicando as ilustrações. Essas coisas não são contradições, pois elas se complementam mutuamente: uma contrabalança a outra. Assim sendo, as Escrituras demonstram tanto a soberania de Deus como a responsabilidade do homem.
Nesta obra, porém, é com a soberania de Deus que nos preocupamos, e, reconhecendo de bom grado o fato da responsabilidade do homem, não nos vamos deter a cada página parainsistir nesse ponto; ao contrário, temos procurado ressaltar aquele aspecto da verdade que nestes dias está sendo quase universalmente negligenciado. Talvez 95 por cento da literatura religiosa dos nossos dias se dediquem a demonstrar os deveres e as obrigações dos homens. O fato, entretanto, é que os autores que tomam sobre si expor a responsabilidade humana são aqueles que perderam o “equilíbrio da Verdade”, por negligenciarem, em grande medida, a soberania de Deus. É absolutamente certo alguém insistir na responsabilidade do homem. Que dizer, porém, sobre Deus? Não tem Ele reivindicações e nem direitos? Necessária seria uma centena de livros como este, e dez mil sermões precisariam ser pregados pelo país inteiro, sobre este assunto, para atingir-se o equilíbrio da verdade. Perdeu-se tal equilíbrio, e essa perda se deve à ênfase, que vai além das proporções, dada ao lado humano, ao ponto de apequenar-se, senão mesmo de excluir, o lado divino. Reconhecemos que este livro é unilateral, porque se propõe a tratar de um só dos lados da verdade, o lado negligenciado, o lado divino.

A SOBERANIA DE DEUS E A ATUALIDADE
Quem está regendo os acontecimentos na terra hoje Deus, ou o diabo? Que Deus reina supremo no céu é geralmente reconhecido; que não reina soberano sobre este mundo, é o que se assevera quase a uma - senão diretamente, pelo menos de maneira indireta. Os homens estão relegando mais e mais a pessoa de Deus a um plano secundário, através de suas filosofas e teorias. Não somente se nega que Deus criou tudo através de sua ação pessoal e direta; mais do que isso, poucos são os que crêem que Deus tem qualquer preocupação imediata emregular as obras de suas próprias mãos. Pressupõe-se que tudo tenha sido ordenado segundo as “leis da natureza”, abstratas e impessoais. Dessa forma, o Criador é banido de sua própria criação. Não devemos pois, ficar surpresos, se os homens, nos seus conceitos degradados, o excluem do âmbito das atividades humanas. Em toda a cristandade, com exceções que quase não se podem levar em conta, mantém-se teorias como a de que o homem determina a própria sorte e decide seu destino através do seu “livre arbítrio”. Que Satanás deve levar a culpa de boa parte do mal existente no mundo, admitem-no sem restrições aqueles que, apesar de terem muito a dizer quanto à “responsabilidade do homem”, freqüentementenegam a sua própria responsabilidade, atribuindo ao diabo aquilo que, de fato, procede de seus próprios corações maus (Marcos 7:21-23).
Quem, entretanto, está regulando as coisas no mundo hoje - Deus ou o diabo? Busque-se uma visão mental, séria e compreensiva do mundo. Com que cenário de confusão e de caos nos confrontaremos por toda parte! Predomina o pecado; campeia a ilegalidade; homens perversos e impostores estão, de fato, indo de mal a pior (II Timóteo 3:13). Hoje em dia, tudo parece desconjuntado. Tronos rangem, ameaçando sofrer colapso, dinastias milenares são subvertidas, povos entram em revolta, a civilização é um fracasso; metade da cristandade, ainda há pouco, estava entregue a uma luta mortal; agora, passado o conflito titânico, ao invés de termos um mundo “seguro para a democracia”, percebemos que a própria democracia longe está de ser segura neste mundo. A agitação, a insatisfação, a ilegalidade grassam por todos os lugares, e ninguém pode prever dentro de quão pouco tempo outra grande guerra seria deflagrada. Os estadistas quedam-se perplexos e abalados. Os corações dos homens “desmaiarão de terror e pela expectativa das cousas que sobrevirão ao mundo” (Lucas 21:26). Coisas como essas dão a impressão de que Deus exerce pleno domínio?
Vamos; porém, confiar a nossa atenção ao campo religioso. Depois de dezenove séculos de pregação do evangelho, Cristo ainda é “desprezado e rejeitado pelos homens”. Pior ainda,Ele (o Cristo das Escrituras) está sendo proclamado e glorificado por muito poucos. Na maioria dos púlpitos modernos é Ele esquecido e marginalizado. Apesar dos esforços desmedidos para atrair às multidões, as igrejas, na sua maioria, estão esvaziando-se, ao invés de se encherem. E que dizer do grande número dos Que não freqüentam igrejas? À luz das Escrituras, temos forçosamente de crer que os “muitos” estão no caminho largo, que leva à perdição, e que “poucos” estão no estreito caminho que conduz à vida. Muitos declaram que o cristianismo é um fracasso ; e o desespero transparece em muitos rostos. Não poucos dos que pertencem ao Senhor se sentem confusos, e sua fé está sendo severamente testada. E qual é a atitude de Deus? Está Ele vendo e ouvindo? Certo número daqueles que são reputados lideres do pensamento cristão emitiu a opinião de que Deus não pôde impedir a explosão desta última guerra, tão terrível, e que não teve a capacidade de terminá-la. Dizia-se, e isso abertamente, que as condições estavam além do controle de Deus. Coisas como estas dão a impressão de ser Deus que impera no mundo?
Quem é que regula as coisas, nesta terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que impressão fica na mente daqueles homens do mundo que, ocasionalmente, freqüentam um culto evangélico? Quais os conceitos formados por aqueles que ouvem até mesmo pregadores considerados “ortodoxos”? Não é que os cristãos estão crendo em um Deus decepcionado? A julgar por aquilo que se ouve do evangelista comum dos nossos dias, o ouvinte sério não é obrigado a concluir que representa ele um Deus tomado de intenções benévolas, incapaz, porém, de as levar a bom termo; que deseja sinceramente abençoar os homens, embora estes não Lhe dêem licença para assim fazer? Logo, o ouvinte em geral não é forçado a inferir que o diabo assumiu a primazia, e que Deus é mais digno de comiseração do que da nossa adoração?
Não parece indicar tudo que o diabo tem, realmente, mais a ver com as coisas desta terra do que Deus? Tudo depende de estar você andando pela fé, ou pelas aparências. Seus pensamentos, leitor, quanto ao mundo e ao relacionamento de Deus com o mundo, baseiam-se naquilo que você está vendo? Encare essa pergunta de modo sério e honesto. E, se você é um crente, provavelmente terá motivo de abaixar a cabeça, com vergonha e tristeza, reconhecendo que assim é. Infelizmente, na prática, andamos mui pouco “pela fé”. Que significa “andar pela fé”? Significa isto: nossos pensamentos são formados, nossas ações são reguladas, nossa vida é moldada pelas Sagradas Escrituras, “porquê a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17). É da Palavra da Verdade, e somente dela, que podemos aprender qual é o relacionamento entre Deus e o mundo.
Quem está regulando as coisas na terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que dizem as Escrituras? Antes de considerarmos a resposta direta para essa pergunta, digamos que as Escrituras predisseram tudo aquilo que agora vemos e ouvimos. A profecia de Judas se está cumprindo. A comprovação dessa assertiva nos afastaria para longe do tema de nosso estudo; o que, porém, temos em mente, de maneira especial, é esta frase do oitavo versículo “quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como rejeitam governo e difamam autoridades superiores”. Sim, até difamam a Dignidade suprema, o “Único Potentado, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”. Nossa época é, especificamente, uma era de irreverência, e, consequentemente, o espírito de insubordinação que não tolera qualquer restrição e que deseja arredar tudo quanto venha a interferir com a livre expressão da vontade própria, está rapidamente engolindo a terra, como se fosse gigantesco macaréu. A geração que ora desponta fornece os ofensores mais flagrantes, e, na decadência e desaparecimento da autoridade dos pais, temos o precursor certo do colapso da autoridade civil. Portanto, tendo em vista a crescente falta de respeito pelas leis humanas, e a recusa de “dar honra a quem a merece”, não nos deve causar surpresa que o conhecimento da majestade, da autoridade e da soberania do Legislador Onipotente se relegue mais e mais a segundo plano, e que as massas tenham sempre menos paciência com aqueles que insistem sobre essas coisas.
Quem está regulando as coisas na terra, hoje em dia Deus, ou o diabo? Que dizem as Escrituras? Se cremos em suas declarações claras e positivas, não há lugar para a incerteza. Afirmam, vez após vez, que Deus está no trono do universo; que o cetro está em suas mãos; que Ele dirige todas as coisas “segundo o conselho da sua vontade”. Afirmam não somente que Deus criou todas as coisas, mas também que o Senhor domina e reina sobre to das as obras das suas mãos. Afirmam que Deus é o “onipotente”, que sua vontade é irreversível, que ele é soberano absoluto em cada recanto dos seus vastos domínios. E, certamente, tem de ser assim. Há apenas uma alternativa possível: ou Deus domina, ou é dominado; ou impera, ou é subalterno; ou cumpre a sua vontade, ou é ela impedida pelas criaturas. Aceitando-se o fato de Que Deus é o “Altíssimo” ; o único Potentado e o Rei dos Reis, revestido de sabedoria perfeita e de poder ilimitado, não há resistir-se à conclusão de que deve Ele ser Deus de fato, e não apenas de nome.
Tendo em vista aquilo que acima referimos de maneira resumida, dizemos que as condições atuais requerem, urgentemente, nova análise e nova apresentação da onipotência de Deus, dá auto-suficiência de Deus, da soberania de Deus. De cada púlpito da nação precisa ser trovejada a verdade que Deus ainda vive, que Deus ainda observa, que Deus ainda reina. A fé está no crisol, testada pelo fogo; e não há nenhum lugar adequado de descanso para o coração e para a mente, a não ser no trono de Deus. O que se faz mister agora, como nunca antes, é a demonstração completa, positiva e construtiva da divindade de Deus. Enfermidades drásticas exigem remédios drásticos. As pessoas se cansam de chavões e de meras generalizações - exige-se algo mais definido e específico. Um xaropinho adocicado pode servir para crianças manhosas; um tônico de ferro, porém, é mais adequado para os adultos, e nada conhecemos com maior possibilidade de infundir vigor espiritual em nosso ser do que a compreensão bíblica da plenitude do caráter de Deus. Está escrito. “O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo” (Daniel 11:32).
Estamos, sem dúvida, no limiar de uma crise mundial, e em todos os lugares os homens estão alarmados. Mas, o Senhor Deus não o está! Ele nunca se deixa apanhar desprevenido. Não há emergência inesperada que surpreenda a Deus, pois ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). Portanto, embora o mundo seja tomado pelo pânico, a Palavra, para quem crê, é: “Não temais!” “Todas as coisas” se sujeitam a seu controle imediato: “todas as coisas” avançam segundo o seu eterno propósito, e, assim sendo, “todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”.
Tem que ser assim, porque “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Romanos 11:36). Quão pouco se reconhece isso hoje em dia, mesmo entre o povo de Deus! Muitos supõem que Deus é pouco mais que um espectador distante, que não interfere de maneira direta nos assuntos da terra. É verdade que o homem tem vontade, mas Deus também tem vontade. É verdade que o homem é dotado de poder, mas Deus é o onipotente. É verdade que, falando de modo geral, o mundo material é regulamentado por leis, mas, por detrás dessas leis, há o Legislador e Administrador, que as estabelece. O homem é somente uma criatura. Deus é o Criador, e, intermináveis eras antes de ver o homem a luz pela primeira vez, já existia o “Deus altíssimo” (Isaías 9:6); e antes da fundação do mundo foram feitos os seus planos; e, sendo o Senhor infinito em poder, ao passo que o homem é apenas finito, seu propósito, seu plano, não pode ser resistido ou impedido pelas criaturas de suas próprias mãos.
Reconhecemos, sem hesitação, que a vida é um problema profundo; e que estamos circundados de mistérios por todos os lados; não somos, entretanto, como os animais do campo - ignaros da própria origem, sem consciência do futuro. Não: “Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética”, da qual se diz: “...fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos corações” (II Pedro 1:19). E, de fato, fazemos bem em atender à Palavra da profecia, pois essa Palavra não teve origem na mente do homem, mas na mente de Deus, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte .de Deus, movidos pelo Espírito Santo” Uma vez mais dizemos, que esta é a Palavra a que devemos dar atenção. Ao abrirmos a Palavra, sendo instruídos por ela, descobrimos um princípio fundamental que deve ser aplicado a cada problema: ao invés de começar com o homem, para então avançar até chegarmos a Deus, devemos começar com o Senhor, para depois irmos descendo até o homem - “No princípio...Deus...”! Aplique esse princípio à situação atual. Comece com o mundo em sua condição presente, procure raciocinar até chegar a Deus : tudo parecerá comprovar que Deus não tem qualquer ligação com o mundo. Comece, porém, com Deus, e venha gradualmente até o mundo; e luz, bastante luz, projetará sobre o problema. Porque Deus é santo, a Sua ira arde contra o pecado; porque Deus é justo, Seus juízos caem sobre os que se rebelam contra Ele; porque Deus é fiel, cumprem-se as ameaças solenes da Sua Palavra; porque Deus é onipotente, ninguém conseguirá resistir-lhe, e, muito menos ainda, subverter-lhe o conselho; e porque Deus é onisciente, nenhum problema pode vencê-lo, nenhuma dificuldade pode frustrar-lhe a sabedoria. É exatamente porque Deus é o que é que estamos hoje vendo na terra o que estamos vendo - o começo da execução de seus juízos. À vista de Sua justiça inflexível e de Sua santidade imaculada, não poderíamos esperar nada senão aquilo que agora se descortina perante os nossos olhos.
Deve-se, porém, dizer com muita ênfase que o coração humano só pode descansar na bendita verdade da absoluta soberania de Deus e desfrutar dela na medida em que se exerce fé. A fé sempre se fixa em Deus. Essa é a sua natureza; o que a distingue da teologia intelectual. A “fé permanece firme como quem vê aquele que é invisível” (Hebreus 1 I :27); persevera no meio das decepções, das necessidades, das angústias de coração que a vida oferece, reconhecendo que tudo provém da mão dAquele que é sábio por demais para errar e por demais amoroso para ser cruel. Porém, enquanto nos preocupamos com qualquer coisa que não seja o próprio Deus, não haverá descanso para o coração e nem paz para a mente. Quando, porém, recebemos tudo que nos advém na vida como proveniente de sua mão, sejam quais forem as nossas circunstâncias ou o nosso ambiente - seja num casebre ou num cárcere, ou no madeiro do mártir - teremos a capacidade de dizer: “Caem-me as divisas em lugares amenos” (Salmo 16:6). Essa é a linguagem da , e não da vista, ou a dos sentidos.
Se, entretanto; ao invés de curvar-nos perante o testemunho das Sagradas Escrituras, se, ao invés de andar pela fé, seguíssemos a evidência dos nossos próprios olhos, tomando-a como nosso ponto de partida para o raciocínio, então cairíamos no lamaçal do que, na prática, seria o ateísmo. Ou, se estamos sendo dirigidos pelas opiniões e pelos pontos de vista de outros, não haverá mais paz para nós. Admitindo que há muita coisa neste mundo de pecado e de sofrimento que nos horroriza e nos entristece; admitindo que há muita coisa nos tratos providenciais de Deus que nos assusta e abala, não deve ser isso motivo para concordarmos com o mundano descrente, que diz: “Se eu fosse Deus, não permitiria que isto acontecesse, e nem toleraria aquilo”. Muito melhor, ante os mistérios que nos deixam perplexos, é dizer com o sábio da antigüidade: “Emudeço, não abro os meus lábios, porque tu fizeste isso” (Salmo 39 :9). As Escrituras nos dizem que os julgamentos de Deus são insondáveis, e que seus caminhos são “inescrutáveis” (Romanos 11:33). É mis ter que seja assim, para testar-nos a fé, para fortalecer-nos a confiança na sua sabedoria e justiça, para promover nossa submissão à sua santa vontade.
Aqui reside a diferença fundamental entre o homem de fé e o homem sem fé. O descrente é “do mundo”, e a tudo julga conforme os padrões terrenos, encara a vida do ponto de vista do tempo e dos sentidos, e pesa tudo na balança do seu entendimento carnal. Mas, o homem de fé inclui Deus, encara tudo do ponto de vista de Deus, calcula os valores segundo padrões espirituais e vê a vida à luz da eternidade. Assim fazendo, recebe o que lhe advier como provindo da mão de Deus. Assim fazendo, seu coração conserva a calma em meio à tempestade. Assim fazendo, regozija-se na esperança da glória de Deus.
Nestes parágrafos iniciais temos indicado as linhas de pensamento seguidas neste livro. Nosso primeiro postulado é que, porque Deus é Deus, Ele faz o que Lhe agrada, somente o que Lhe agrada, sempre o que Lhe agrada; que Seu grande interesse é a realização do Seu próprio beneplácito e a promoção de Sua própria glória; que Ele é o Supremo Ser, e, portanto, Soberano do universo. Começando com este postulado, temos completado o exercício da soberania de Deus, primeiro na Criação, segundo na Administração Governamental sobre as obras das Suas mãos, terceiro na Salvação dos Seus eleitos, quarto na Reprovação dos ímpios e quinto na Operação sobre e dentro dos homens. Depois, temos visto a Soberania de Deus na sua relação com a vontade humana em particular, e com a responsabilidade humana em geral, e temos procurado mostrar qual é a única atitude conveniente para a criatura ter, em vista da majestade do Criador. Um capítulo separado foi posto aparte para a consideração de algumas das dificuldades que estão envolvidas, e para a resposta de questões que serão provavelmente levantadas nas mentes dos nossos leitores; um capítulo foi devotado a uma examinação mais cuidadosa, porém breve, da relação entre a soberania de Deus e a oração. Finalmente, procuramos mostrar que a Soberania de Deus é uma verdade revelada a nós, nas Escrituras, para o conforto dos nossos corações, o fortalecimento das nossas almas e bênção de nossas vidas. Uma apreensão devida da soberania de Deus promove o espírito de adoração, provê um incentivo para a peidade prática e inspira zelo no serviço. Ela é profundamente humilhante para o coração humano, mas numa proporção em que traz o homem ao pó diante do Seu Criador, e a uma extensão em que Deus é glorificado [Nota: este parágrafo, não sei por qual motivo, não se encontra na tradução brasileira do livro. Por este motivo, traduzi e inclui o mesmo].
Reconhecemos que o que temos escrito está em aberta oposição a muitos ensinamentos em voga tanto na literatura religiosa como nos púlpitos de mais nomeada do país. Reconhecemos sem hesitação que o postulado da soberania de Deus, com todos os seus corolários, está em direto contraste com as opiniões e os pensamentos do homem natural, mas a verdade é que o homem natural é inteiramente incapaz de meditar nesses assuntos: não é competente para formar correta estimativa do caráter e dos caminhos de Deus; e é por causa disso que Deus nos deixou uma revelação da Sua mente, revelação em que a firma com clareza: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8,9). À vista dessa citação das Escrituras, só se pode esperar que haja muita coisa na Bíblia em conflito com os sentimentos da mente carnal, que é inimizade contra Deus. Não apelamos, pois, às crenças populares dos nossos tempos, nem para os credos das igrejas, mas para a lei e o testemunho do Senhor. Tudo que pedimos é um exame imparcial e atento daquilo que temos escrito, lavrado com orações, à luz da Lâmpada da Verdade. Que o leitor dê atenção à admoestação divina: “Julgai todas as cousas, retende o que é bom” (I Tessalonicenses 5:21).


Fonte: Extraído do Livro “Deus é Soberano” - Ed. FIEL. O autor continua a sua análise nos capítulos seguintes demonstrando a Soberania de Deus: (...) na Criação, (...) na Administração, (...) na Salvação, (...) em Operação, (...) e a vontade Humana, (...) e a Oração, Nossa atitude para com (...), O Valor desta Doutrina e Conclusão. (monergismo)
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